O que causa a insônia? Entenda por que algumas pessoas não conseguem dormir

O que causa a insônia?

Você pode estar cansado, querer dormir e, ainda assim, permanecer acordado.

O quarto está escuro. O dia terminou. Não há mais nada para fazer. Mesmo assim, os pensamentos continuam, o corpo parece não desacelerar e a preocupação com o horário só aumenta.

A pergunta costuma aparecer rapidamente: por que eu não consigo dormir?

A resposta, porém, não costuma ser uma única causa.

A insônia pode envolver uma combinação de predisposição individual, estresse, ansiedade, condições de saúde, alterações no ritmo de sono, medicamentos, substâncias, ambiente e comportamentos relacionados ao próprio ato de dormir. Em algumas pessoas, um período difícil desencadeia o problema. Em outras, uma condição física ou uma alteração do ritmo circadiano pode ter papel importante.

E existe ainda uma parte menos intuitiva: depois que a dificuldade para dormir começa, a própria preocupação com o sono pode ajudar a mantê-la.

Neste post, vamos entender como esses fatores se combinam e por que a ciência não trata a insônia como se existisse uma única “causa”.


Primeiro: o que significa ter insônia?

Uma noite ruim não é necessariamente insônia.

É normal que uma pessoa durma mal ocasionalmente. Uma preocupação, uma viagem, uma doença, uma mudança de rotina ou uma noite excepcionalmente estressante podem interferir no sono.

O transtorno de insônia é diferente.

Na avaliação clínica, ele envolve dificuldade persistente para iniciar o sono, permanecer dormindo ou acordar antes do desejado, acompanhada de consequências durante o dia e ocorrendo apesar de haver oportunidade adequada para dormir. Para o quadro crônico, os sintomas geralmente estão presentes pelo menos três noites por semana durante três meses ou mais.

Isso é importante porque dormir mal e ter um transtorno de insônia não são necessariamente a mesma coisa.

Além disso, dizer que alguém tem insônia descreve uma dificuldade relacionada ao sono. Não explica, sozinho, por que aquela pessoa está dormindo mal.

A origem pode ser diferente de uma pessoa para outra.


A insônia costuma ser resultado de vários fatores

Uma das formas mais úteis de compreender a insônia é pensar em três grupos de fatores:

  • Predisponentes: características que podem aumentar a vulnerabilidade;
  • Desencadeantes: acontecimentos ou mudanças que iniciam ou agravam o problema;
  • Perpetuantes: fatores que fazem a dificuldade continuar mesmo depois que o gatilho inicial diminui.

Esse modelo ajuda a explicar uma situação aparentemente contraditória.

Imagine alguém que sempre dormiu relativamente bem. Depois de uma situação de estresse, começa a passar horas acordado durante a noite.

O acontecimento pode ter sido o gatilho.

Mas, algumas semanas depois, a situação original já melhorou e o sono continua ruim.

Nesse momento, outros mecanismos podem estar mantendo o problema.

É por isso que procurar apenas o primeiro acontecimento não é suficiente para compreender todos os casos de insônia.


Algumas pessoas podem ser mais vulneráveis à insônia

Imagem: acervo pessoal

Algumas pessoas podem ser mais vulneráveis

A insônia não parece depender apenas do que acontece na vida.

Estudos com famílias, gêmeos e dados genéticos indicam que existe um componente hereditário na vulnerabilidade à insônia. Isso não significa que exista um “gene da insônia” que determine quem terá ou não o transtorno.

O que a pesquisa sugere é algo mais complexo: fatores genéticos podem contribuir para diferenças na maneira como as pessoas respondem ao estresse e às alterações do sono.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Sleep Research analisou diferentes linhas de evidência genética e descreveu a insônia como um fenômeno complexo, no qual fatores genéticos e ambientais interagem.

Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem passar por situações semelhantes e apresentar respostas diferentes.

Uma pode atravessar um período de grande pressão e continuar dormindo normalmente.

Outra pode começar a dormir mal depois de poucos dias de preocupação.

Isso não significa que uma seja “mais fraca” do que a outra. Significa que vulnerabilidade biológica, experiências e contexto podem se combinar de maneiras diferentes.


O estresse pode ser o gatilho

Mudanças importantes na vida estão entre os fatores que podem precipitar dificuldades de sono.

Problemas financeiros, conflitos, separações, doenças na família, mudanças de trabalho, provas, preocupações persistentes e outros acontecimentos estressantes podem alterar temporariamente o sono.

Isso não significa que toda pessoa submetida a estresse desenvolverá insônia.

Mas, para alguém que já apresenta determinada vulnerabilidade, um período de estresse pode funcionar como um gatilho.

O problema pode começar com algumas noites ruins.

Depois, a pessoa passa a se preocupar com a possibilidade de repetir a experiência.

E é aí que a história pode mudar.


Quando o cérebro continua em alerta

Um dos conceitos importantes nos modelos atuais da insônia é o hiperalerta.

Em termos simples, significa um estado de maior ativação em diferentes níveis, fisiológico, cerebral e cognitivo-emocional, que pode dificultar a transição para o sono.

Pense em alguém esperando uma notícia importante.

Mesmo sentado e aparentemente parado, essa pessoa pode permanecer atenta a qualquer sinal. O corpo está quieto, mas a atenção continua direcionada para o que pode acontecer.

Algo semelhante pode ocorrer na insônia.

A pessoa está cansada, mas continua pensando, antecipando problemas, revendo acontecimentos ou monitorando o próprio estado.

“Será que vou conseguir dormir?”

“Quanto tempo falta para eu acordar?”

“Como vou funcionar amanhã?”

“Preciso dormir agora.”

Esses pensamentos não significam que a pessoa esteja conscientemente escolhendo ficar acordada.

Eles podem fazer parte de um estado de ativação que dificulta justamente aquilo que ela está tentando conseguir: dormir.

Um estudo publicado em 2024 comparou 49 pessoas com transtorno de insônia a 49 pessoas sem o transtorno e encontrou diferenças na atividade eletroencefalográfica compatíveis com hiperalerta cortical ao longo do ciclo de 24 horas. O resultado é interessante porque sugere que o fenômeno não se limita necessariamente ao momento em que a pessoa está deitada tentando dormir.

Mas é importante não exagerar essa conclusão.

Esse tipo de estudo ajuda a investigar mecanismos associados à insônia. Ele não significa que todo caso de insônia possa ser explicado por uma alteração específica no cérebro.


Quando a preocupação com o sono passa a fazer parte do problema

Existe uma característica particularmente frustrante da insônia: tentar dormir pode se transformar em uma fonte de tensão.

A pessoa olha para o relógio.

“2h30.”

Depois calcula quanto tempo ainda resta até precisar acordar.

“Se eu dormir agora, ainda consigo descansar.”

Pouco depois:

“Preciso dormir.”

E então:

“Por que eu não consigo dormir?”

A cama, que deveria estar associada ao descanso, pode começar a ficar associada à frustração, preocupação e vigilância.

Esse é um dos motivos pelos quais a insônia pode persistir mesmo depois que o acontecimento que iniciou o problema já passou.

O estresse pode ter sido o gatilho.

Mas a preocupação antecipada, o monitoramento do sono e a associação entre cama e vigília podem contribuir para manter o ciclo.

Isso também ajuda a entender por que a insônia não deve ser tratada simplesmente como uma questão de “força de vontade”.


Ansiedade e insônia estão relacionadas, mas não são a mesma coisa

Imagem: acervo pessoal

Ansiedade e insônia estão relacionadas, mas não são a mesma coisa

Ansiedade e insônia frequentemente aparecem juntas.

Quando estamos preocupados, pensamentos sobre o futuro podem ocupar justamente o período em que deveríamos desacelerar.

Mas a relação não é tão simples quanto dizer que “ansiedade causa insônia”.

Os dois fenômenos podem compartilhar fatores de risco e podem influenciar um ao outro.

Uma meta-análise publicada em 2025 encontrou sobreposição genética significativa entre sintomas de insônia e sintomas de ansiedade e depressão. Para sintomas de insônia e ansiedade, a correlação genética estimada foi de 0,75; para sintomas de insônia e depressão, 0,72.

Esses números precisam ser interpretados com cuidado.

Correlação genética não significa que ansiedade ou depressão sejam geneticamente “causadas” pela insônia, nem que uma condição inevitavelmente produza a outra.

O resultado indica que os traços estudados compartilham parte de sua arquitetura genética.

Na prática, isso reforça uma ideia mais ampla: sono e saúde mental estão relacionados, mas a relação é multidirecional e depende de vários fatores.


Nem toda insônia começa na mente

Existe um risco de interpretar toda dificuldade para dormir como consequência de preocupação ou ansiedade.

Isso seria uma simplificação.

Dor persistente, problemas respiratórios, alterações hormonais, doenças neurológicas, outros transtornos do sono e determinadas condições médicas podem interferir no sono. Medicamentos também podem alterar o padrão de sono dependendo da substância, dose, horário e características individuais.

A revisão de 2026 sobre transtorno de insônia destaca justamente a interação entre fatores biológicos, psicológicos e comportamentais e a frequente coexistência da insônia com outras condições de saúde.

Por isso, duas pessoas que dizem “tenho insônia” podem estar enfrentando situações bastante diferentes.

Uma pode estar passando por um período de estresse intenso, outra pode ter dor persistente, outra pode apresentar alterações no ritmo circadiano, outra pode ter outro distúrbio do sono, e algumas podem apresentar vários desses fatores ao mesmo tempo.


O relógio biológico também importa

O sono não depende apenas de estar cansado.

O organismo possui ritmos circadianos que ajudam a organizar períodos de sono e vigília ao longo de aproximadamente 24 horas.

Quando esse sistema fica desalinhado com os horários da vida cotidiana, dormir pode se tornar mais difícil.

Isso pode acontecer, por exemplo, no trabalho em turnos.

Uma pessoa que trabalha durante a madrugada precisa dormir em um período no qual o ambiente, a luz e o próprio relógio biológico podem favorecer a vigília.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu 48 estudos sobre pessoas que estavam começando a trabalhar em turnos. Os pesquisadores encontraram piora de indicadores de sono e saúde mental após o início do trabalho em turnos.

Isso não significa que todo trabalhador em turnos desenvolverá insônia.

Significa que mudar repetidamente o horário em que o organismo precisa estar acordado ou dormindo pode criar uma condição desfavorável ao sono.

O problema, portanto, nem sempre está apenas na pessoa.

Às vezes, está também na relação entre horário de trabalho, luz, rotina social e relógio biológico.


Cafeína, álcool e medicamentos podem interferir

Substâncias também podem participar dessa história.

A cafeína é um exemplo conhecido porque aumenta o estado de alerta.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 reuniu 24 estudos experimentais e encontrou redução do tempo total de sono, aumento do tempo necessário para adormecer e aumento do tempo acordado depois de adormecer quando os participantes consumiam cafeína. O efeito variava de acordo com dose e horário de consumo.

Isso não significa que qualquer consumo de café provocará insônia.

A resposta depende da quantidade, do horário, do metabolismo individual e de outros fatores.

O álcool também merece cuidado. Algumas pessoas podem sentir sonolência depois de beber, mas sentir sono não é a mesma coisa que ter um sono necessariamente normal e restaurador.

Medicamentos também podem interferir no sono.

Por isso, quando uma dificuldade persistente para dormir começa depois do início de um medicamento, da mudança de dose ou de uma alteração importante no consumo de determinada substância, essa informação pode ser relevante para uma avaliação profissional.

Isso não significa interromper ou modificar medicamentos por conta própria.


O que realmente causa a insônia?

Então, o que realmente causa a insônia?

A resposta mais fiel à ciência é: depende do caso.

Em algumas pessoas, uma predisposição pode aumentar a sensibilidade aos efeitos do estresse.

Um acontecimento difícil pode desencadear algumas noites de sono ruim.

A preocupação com o sono pode aumentar o estado de alerta.

A cama pode começar a ser associada à vigília e à frustração.

Uma condição física pode contribuir.

O trabalho em turnos pode entrar em conflito com o relógio biológico.

Cafeína, álcool, medicamentos ou outros fatores comportamentais podem interferir.

E vários desses elementos podem coexistir.

A insônia, portanto, não se parece necessariamente com uma máquina que deixou de funcionar porque uma única peça quebrou.

Ela se parece mais com um sistema em que vulnerabilidade, acontecimentos e mecanismos de manutenção interagem ao longo do tempo.

É justamente essa interação que torna a pergunta “qual é a causa da minha insônia?” mais difícil do que parece.


O que podemos concluir?

O que já sabemos com mais segurança

A insônia não costuma ter uma causa única.

Fatores genéticos, psicológicos, comportamentais, ambientais e físicos podem participar do problema.

Estresse e acontecimentos importantes podem desencadear dificuldades para dormir em pessoas vulneráveis.

O hiperalerta é um dos mecanismos investigados nos modelos atuais da insônia.

A dificuldade persistente para dormir pode passar a ser mantida por preocupação, vigilância e associações negativas com o sono.

Insônia e problemas de saúde mental frequentemente se relacionam, mas uma não pode ser automaticamente usada para diagnosticar a outra.

O que os estudos sugerem

Algumas pessoas podem apresentar maior vulnerabilidade genética ou maior reatividade ao estresse.

Alterações no funcionamento cerebral e nos sistemas de alerta podem participar da manutenção da insônia.

O desalinhamento entre horários de trabalho e ritmos biológicos pode prejudicar o sono.

A relação entre sono, ansiedade e depressão provavelmente envolve influências em várias direções, e não uma única cadeia de causa e efeito.

O que ainda não sabemos

Por que determinadas pessoas desenvolvem insônia após um período de estresse enquanto outras não.

Quais mecanismos são mais importantes para cada pessoa.

Como diferentes fatores biológicos, psicológicos e ambientais se combinam em cada caso.

Até que ponto alterações observadas em estudos são causas, consequências ou parte de um ciclo que se retroalimenta.

O que isso significa para você?

Se você dormiu mal algumas noites, isso não significa automaticamente que tenha um transtorno de insônia.

Mas se a dificuldade para dormir é frequente, persistente e está afetando seu funcionamento durante o dia, vale procurar uma avaliação profissional em vez de tentar descobrir sozinho qual seria a “causa” a partir de uma lista na internet.

Essa avaliação pode ajudar a diferenciar insônia de outros problemas de sono e identificar fatores que estejam contribuindo para a dificuldade.

Para a insônia crônica, a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é considerada uma das principais abordagens de tratamento e é recomendada pelas diretrizes como tratamento de escolha para muitos adultos. Ela não se resume a “dicas de higiene do sono”: envolve componentes comportamentais e cognitivos específicos para quebrar o ciclo que mantém a insônia.

Em outras palavras, entender a causa da insônia não significa encontrar uma única explicação.

Significa descobrir o que está contribuindo para o problema e, principalmente, o que pode estar mantendo-o.

A insônia pode começar muito antes de apagarmos a luz.

E, muitas vezes, compreendê-la exige olhar para tudo aquilo que acontece antes e depois de chegarmos à cama.


Continue explorando

Se entender por que a insônia acontece é o primeiro passo, a próxima pergunta natural é o que pode ajudar quando o problema persiste.

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O trabalho também pode fazer parte da história do sono. Sobrecarga, organização do trabalho e condições psicossociais ajudam a contextualizar por que, em alguns casos, não basta procurar uma explicação exclusivamente individual.


Referências

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Nota editorial

Este artigo possui caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento de profissionais de saúde. Estudos científicos podem identificar associações e mecanismos compatíveis com determinadas explicações, mas isso não significa que uma única variável seja responsável por todos os casos de insônia. A interpretação das evidências pode mudar à medida que novas pesquisas são publicadas.

Enfermeiro | Especialista em Saúde Mental (Dependência Química) e Enfermagem do Trabalho Renato Ozeki é enfermeiro formado em 2010, com especializações em Saúde Mental, com ênfase em Dependência Química, e Enfermagem do Trabalho. Atua na Universidade de São Paulo desde 2014 em atividades relacionadas à saúde mental, além de participar de atividades de formação e realizar palestras na área.

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