Por que o sono pode estar roubando anos da nossa vida profissional?

Por que o sono pode estar roubando anos da nossa vida profissional?

Dormir mal costuma ser tratado como um problema do dia seguinte: mais cansaço, dificuldade de concentração, irritação ou menor disposição para trabalhar.

Mas o sono pode estar relacionado a uma questão mais ampla: por quanto tempo uma pessoa consegue permanecer no mercado de trabalho ao longo da vida?

Um estudo publicado em agosto de 2026 na revista Occupational and Environmental Medicine investigou justamente essa relação. Os pesquisadores analisaram dados de mais de 76 mil pessoas na Finlândia com 50 anos ou mais e estimaram quantos anos elas poderiam permanecer trabalhando entre os 50 e os 68 anos, considerando diferentes padrões de sono.

Os resultados chamam atenção, mas precisam ser interpretados com cuidado. O estudo encontrou uma associação entre problemas de sono e menor expectativa de vida profissional. Isso não significa que dormir mal, por si só, faça uma pessoa trabalhar menos anos.

A diferença entre essas duas afirmações é fundamental.


O que significa expectativa de vida profissional?

A chamada expectativa de vida profissional (working life expectancy) é uma estimativa de quantos anos uma pessoa pode permanecer na força de trabalho durante determinado período da vida.

No estudo finlandês, os pesquisadores analisaram especificamente o intervalo entre os 50 e os 68 anos.

Isso permite olhar para o trabalho de uma maneira diferente.

Em vez de perguntar apenas se uma pessoa está trabalhando hoje, a medida procura estimar quanto tempo ela deverá permanecer trabalhando ao longo de determinado período, considerando também possíveis transições entre trabalho, ausência do trabalho e aposentadoria.

Portanto, quando o estudo fala em uma diferença de alguns meses na expectativa de vida profissional, não está dizendo que uma pessoa necessariamente se aposentará exatamente alguns meses antes.

Trata-se de uma estimativa populacional, construída a partir dos padrões observados nos grupos estudados.


Como o estudo foi feito?

Os pesquisadores utilizaram dados de duas grandes coortes finlandesas.

A primeira foi o Finnish Public Sector Study (FPS), que reuniu 70.339 participantes, dos quais aproximadamente 80% eram mulheres.

A segunda foi o Health and Social Support Study (HeSSup), com 6.071 participantes, sendo aproximadamente 54% mulheres.

Os participantes tinham 50 anos ou mais.

Os pesquisadores analisaram dois aspectos diferentes do sono:

  • presença de distúrbios do sono;
  • duração habitual do sono.

No FPS, os problemas de sono foram classificados como nenhum, moderado ou grave.

A duração do sono foi dividida em três grupos:

  • menos de 7 horas;
  • de 7 a 8,5 horas;
  • 9 horas ou mais.

A expectativa de vida profissional entre os 50 e os 68 anos foi então estimada por meio de modelos de tabela de vida multiestado, uma metodologia que permite considerar diferentes transições na situação profissional ao longo do tempo.

Esse desenho é importante porque o estudo não se limitou a perguntar se alguém dormia bem ou mal. Ele procurou relacionar diferentes padrões de sono a uma medida específica de permanência no mercado de trabalho.


O que os pesquisadores encontraram sobre os problemas de sono?

Imagem: acervo pessoal

O que os pesquisadores encontraram sobre os problemas de sono?

No Finnish Public Sector Study, as estimativas foram:

  • sem distúrbios do sono: 13,4 anos de expectativa de vida profissional;
  • distúrbios moderados: 13,0 anos;
  • distúrbios graves: 12,8 anos.

A diferença entre o grupo sem distúrbios e o grupo com problemas graves foi, portanto, de aproximadamente 0,6 ano, ou cerca de sete meses.

Os autores resumiram o resultado como uma redução de aproximadamente 8 a 9 meses na expectativa de vida profissional associada aos distúrbios graves do sono, em comparação com a ausência de distúrbios.

Esse resultado não significa que cada pessoa com insônia ou outro problema de sono perderá oito ou nove meses de vida profissional.

O número representa uma diferença estimada entre grupos de uma população estudada.

E há outro ponto importante: o estudo é observacional.

Os pesquisadores encontraram uma associação entre as variáveis, mas esse desenho não permite afirmar que os distúrbios do sono tenham causado diretamente a redução da expectativa de vida profissional.


E a duração do sono? O resultado é mais complicado do que parece

A duração do sono apresentou um resultado que merece atenção.

No Finnish Public Sector Study, a expectativa de vida profissional estimada foi de:

  • menos de 7 horas: 13,2 anos;
  • 7 a 8,5 horas: 13,2 anos;
  • 9 horas ou mais: 12,4 anos.

À primeira vista, isso pode parecer contraditório.

Se dormir pouco é frequentemente associado a problemas de saúde, por que o grupo que dormia menos de sete horas não apresentou uma expectativa de vida profissional menor que o grupo que dormia entre 7 e 8,5 horas?

A resposta é que este estudo específico não encontrou diferença na expectativa de vida profissional entre esses dois grupos no FPS.

O resultado mais marcante apareceu entre aqueles que relatavam dormir 9 horas ou mais.

Mas isso também não significa que dormir nove horas seja, por si só, uma causa de saída antecipada do mercado de trabalho.

Essa distinção é particularmente importante porque a duração do sono pode ser influenciada por uma série de fatores relacionados à saúde e às condições de vida.


Dormir nove horas causa uma vida profissional mais curta?

Não é possível afirmar isso a partir deste estudo.

O grupo que dormia nove horas ou mais apresentou menor expectativa de vida profissional, mas uma associação desse tipo pode ter várias explicações.

Uma delas é a possibilidade de que condições de saúde preexistentes influenciem tanto a duração do sono quanto a capacidade de permanecer trabalhando.

Uma pessoa com determinada condição física ou mental pode dormir mais, por exemplo, e ao mesmo tempo ter maior probabilidade de reduzir sua participação no mercado de trabalho.

Nesse cenário, o sono prolongado poderia funcionar mais como um marcador de alguma condição subjacente do que como sua causa.

O próprio estudo apresenta essa limitação. Os pesquisadores reconhecem que não conseguiram explicar completamente fatores como saúde física e mental, condições subjacentes, comportamentos relacionados à saúde e determinadas características do trabalho, incluindo o trabalho em turnos.

Portanto, seria incorreto transformar o resultado em uma recomendação do tipo “não durma nove horas”.

A duração adequada do sono depende de idade, contexto e condições individuais. Recomendações de consenso para adultos, por exemplo, indicam que dormir sete horas ou mais regularmente é importante para a saúde, mas isso não significa que todos os adultos precisem dormir exatamente a mesma quantidade.


O sono pode estar inserido em um ciclo de saúde e trabalho

Uma das interpretações mais interessantes desse estudo é que o sono provavelmente não existe isoladamente.

A relação pode envolver diferentes caminhos.

Problemas persistentes de sono podem afetar o funcionamento durante o dia, enquanto condições de saúde física ou mental podem dificultar o sono. Ao mesmo tempo, determinadas condições de trabalho podem influenciar horários, rotina, estresse e possibilidade de descanso.

Isso cria um cenário em que sono, saúde e trabalho podem estar relacionados de maneira simultânea.

Por isso, uma associação encontrada em um estudo observacional não deve ser transformada automaticamente em uma relação linear de causa e efeito.

A pergunta não é simplesmente:

“Dormir mal faz a pessoa parar de trabalhar?”

É também:

“Quais fatores podem estar relacionados ao sono, à saúde e à permanência no trabalho ao mesmo tempo?”

Essa é uma das razões pelas quais estudos observacionais são importantes, mas precisam ser interpretados dentro de suas limitações.


O problema pode estar também nas condições de trabalho

Imagem: acervo pessoal

O problema pode estar também nas condições de trabalho

Existe ainda uma dimensão que não pode ser ignorada.

O sono não acontece separado da vida cotidiana.

Horários extensos, trabalho em turnos, demandas imprevisíveis, estresse persistente, longos deslocamentos e dificuldade de estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal podem interferir na possibilidade de dormir e descansar adequadamente.

Isso não significa que o estudo finlandês tenha demonstrado que essas condições foram responsáveis pelos resultados.

Ele não permite estabelecer essa conclusão.

Mas a própria pesquisa reconhece que algumas características do trabalho não puderam ser completamente consideradas.

Essa questão também aparece nas orientações da Organização Mundial da Saúde sobre saúde mental no trabalho. A OMS destaca que o trabalho pode funcionar como fator de proteção para a saúde mental, mas determinadas condições de trabalho podem contribuir para problemas de saúde mental e dificultar a participação no trabalho.

Por isso, falar sobre sono no contexto profissional não deveria significar apenas ensinar o trabalhador a “dormir melhor”.

Também pode ser necessário perguntar em que condições essa pessoa está tentando dormir.


Sono, saúde mental e trabalho não são questões separadas

O sono também tem relação com saúde mental.

Isso não significa que toda pessoa que dorme mal tenha um transtorno mental ou que todo problema de sono seja causado por ansiedade, depressão ou estresse.

A relação é mais complexa.

Problemas de saúde mental podem interferir no sono, enquanto dificuldades persistentes para dormir podem afetar o funcionamento durante o dia e o bem-estar.

No ambiente profissional, essas relações podem se tornar ainda mais relevantes quando existe sobrecarga, insegurança, baixa autonomia ou dificuldade de recuperação após o trabalho.

Por isso, o resultado encontrado pelos pesquisadores não deve ser interpretado apenas como uma questão de hábitos individuais.

O sono pode ser uma dimensão da saúde, mas também pode refletir aspectos mais amplos da vida cotidiana.


O estudo não encontrou simplesmente “menos sono = menos anos de trabalho”

Essa talvez seja uma das principais correções necessárias à interpretação do estudo.

O resultado não mostra uma relação simples em que cada hora de sono perdida representa uma determinada quantidade de anos a menos de trabalho.

No FPS, os grupos que dormiam menos de sete horas e entre 7 e 8,5 horas apresentaram a mesma expectativa de vida profissional estimada: 13,2 anos.

A diferença mais expressiva apareceu entre aqueles que relataram nove horas ou mais de sono.

E, novamente, esse resultado representa uma associação.

A pesquisa não permite concluir que dormir nove horas tenha causado a diferença observada.

Esse detalhe é importante porque manchetes simplificadas podem transformar uma pesquisa populacional em uma regra individual que o estudo nunca estabeleceu.


O que esse estudo muda na maneira de pensar o sono?

Talvez a principal contribuição da pesquisa não seja estabelecer um número mágico de horas de sono.

Ela ajuda a mostrar que qualidade do sono, duração do sono, saúde e permanência no trabalho podem estar conectadas.

Também chama atenção para uma diferença importante entre problemas de sono ocasionais e distúrbios mais persistentes.

No estudo, a associação mais clara apareceu entre distúrbios graves do sono e menor expectativa de vida profissional.

Isso não significa que uma noite mal dormida tenha impacto equivalente.

O resultado está relacionado a padrões de sono relatados pelos participantes e a estimativas populacionais de permanência no trabalho entre os 50 e os 68 anos.


Sono e trabalho podem ter relação. O que fazer com essa informação?

Imagem: acervo pessoal

O que fazer com essa informação?

Para o leitor, a principal mensagem não deveria ser transformar o estudo em mais uma cobrança sobre produtividade.

O objetivo não é criar a obrigação de dormir perfeitamente para conseguir trabalhar por mais tempo.

Uma leitura mais cuidadosa é reconhecer que problemas persistentes de sono merecem atenção, especialmente quando começam a afetar o funcionamento durante o dia, a saúde ou a capacidade de trabalhar.

Também é importante não reduzir a questão a uma responsabilidade exclusivamente individual.

Se uma pessoa trabalha em horários imprevisíveis, enfrenta jornadas excessivas ou não consegue se recuperar adequadamente entre os períodos de trabalho, simplesmente recomendar que ela “durma melhor” pode ignorar parte importante do problema.

Sono saudável depende de comportamento individual, mas também pode ser influenciado pelas condições em que a vida acontece.


O que podemos concluir?

O que já sabemos com mais segurança

O estudo finlandês encontrou uma associação entre distúrbios graves do sono e menor expectativa de vida profissional entre adultos com 50 anos ou mais.

No Finnish Public Sector Study, a expectativa de vida profissional estimada foi de 13,4 anos para pessoas sem distúrbios do sono, 13,0 anos para aquelas com distúrbios moderados e 12,8 anos para aquelas com distúrbios graves.

Também sabemos que, nesse estudo, o grupo que dormia 9 horas ou mais apresentou menor expectativa de vida profissional do que o grupo que dormia entre 7 e 8,5 horas.

O que os estudos sugerem

Os resultados são compatíveis com a ideia de que sono, saúde e permanência no trabalho podem estar relacionados.

Também sugerem que problemas persistentes de sono podem ser um marcador importante para a saúde e para a capacidade de permanecer ativo profissionalmente em fases mais avançadas da vida.

A relação, porém, provavelmente envolve diferentes fatores ao mesmo tempo, incluindo condições de saúde e características do trabalho.

O que ainda não sabemos

Não podemos afirmar que dormir mal causa diretamente uma redução na vida profissional.

Também não podemos afirmar que dormir nove horas ou mais provoque, por si só, uma saída antecipada do mercado de trabalho.

O estudo não permite concluir que uma determinada duração de sono seja responsável isoladamente pelo resultado observado.

E não podemos assumir que os mesmos resultados ocorrerão da mesma maneira em todas as populações, países, faixas etárias ou contextos profissionais.

O que a pesquisa oferece é uma associação relevante que merece ser investigada — não uma sentença sobre quantos anos uma pessoa poderá trabalhar.

O que isso significa para você?

Se você tem enfrentado problemas persistentes de sono, a principal mensagem deste estudo não é que dormir mal significa que você perderá anos de vida profissional. A pesquisa encontrou uma associação entre distúrbios graves do sono e menor expectativa de vida profissional, mas não permite dizer que o sono, sozinho, seja a causa dessa diferença.

Também vale olhar para o sono sem transformá-lo em mais uma cobrança por produtividade. Dormir bem não deveria ser apenas uma estratégia para conseguir trabalhar mais ou por mais tempo. O sono faz parte da saúde e pode estar relacionado a outras dimensões da vida, incluindo as condições em que o trabalho acontece.

Por isso, quando o sono começa a interferir de maneira persistente no funcionamento durante o dia, na saúde ou na capacidade de trabalhar, pode ser importante olhar para o problema com mais atenção. E essa análise não precisa se limitar aos hábitos individuais: horários imprevisíveis, jornadas extensas, estresse persistente e dificuldade de recuperação também podem fazer parte da realidade que envolve o sono.

A pesquisa, portanto, não oferece uma fórmula para calcular quantos anos você poderá trabalhar. Ela oferece uma perspectiva diferente: sono, saúde e vida profissional podem estar conectados, e compreender essa relação exige olhar para o conjunto das condições em que a vida acontece.


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Referências

Myllyntausta S, Heikkilä K, Pentti J, Chungkham HS, Suominen S, Kivimaki M, et al. Sleep disturbances and sleep duration as predictors of working life expectancy among adults aged 50 years and older in Finland. Occup Environ Med. 2026 Ago 18. doi:10.1136/oemed-2025-110766. Disponível em: https://doi.org/10.1136/oemed-2025-110766

Watson NF, Badr MS, Belenky G, Bliwise DL, Buxton OM, Buysse D, et al. Recommended amount of sleep for a healthy adult: a joint consensus statement of the American Academy of Sleep Medicine and Sleep Research Society. J Clin Sleep Med. 2015;11(6):591-592. doi:10.5664/jcsm.4758. Disponível em: https://doi.org/10.5664/jcsm.4758

World Health Organization. Guidelines on mental health at work [Internet]. Geneva: World Health Organization; 2022 Set 28 [consultado em 2026 Set 16]. ISBN: 9789240053052. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240053052


Nota editorial

Este artigo interpreta os resultados de um estudo observacional publicado em Occupational and Environmental Medicine. As associações apresentadas não devem ser interpretadas automaticamente como relações de causa e efeito.

O objetivo do texto é contextualizar os achados científicos e explicar suas limitações, e não oferecer diagnóstico ou tratamento individual.

Enfermeiro | Especialista em Saúde Mental (Dependência Química) e Enfermagem do Trabalho Renato Ozeki é enfermeiro formado em 2010, com especializações em Saúde Mental, com ênfase em Dependência Química, e Enfermagem do Trabalho. Atua na Universidade de São Paulo desde 2014 em atividades relacionadas à saúde mental, além de participar de atividades de formação e realizar palestras na área.

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