Redes sociais podem prejudicar o desempenho escolar?
Imagine duas crianças.
Elas têm idades semelhantes, frequentam escolas parecidas e, alguns anos depois, precisam fazer as mesmas avaliações escolares.
Existe, porém, uma diferença importante entre elas.
Uma recebeu seu primeiro smartphone e criou sua primeira conta em uma rede social ainda nos primeiros anos da adolescência.
A outra esperou alguns anos antes de começar a utilizar redes sociais de maneira pessoal.
Será que essa diferença aparentemente pequena pode influenciar o desempenho escolar ao longo do tempo?
Essa é uma das perguntas investigadas por um estudo longitudinal realizado por pesquisadores da Università degli Studi di Milano-Bicocca e da Università degli Studi di Brescia, na Itália.
E os resultados levantam uma questão que vai muito além das notas escolares:
Será que o problema não está apenas em quanto tempo crianças e adolescentes passam nas redes sociais, mas também em quão cedo elas passam a ter acesso a elas?

Fonte: acervo pessoal
O problema talvez não seja apenas “quanto tempo de tela”
Durante muito tempo, grande parte das discussões sobre crianças, adolescentes e tecnologia se concentrou em uma pergunta relativamente simples:
“Quantas horas por dia uma criança passa no celular?”
A pergunta faz sentido.
Afinal, se uma pessoa passa várias horas por dia navegando em redes sociais, esse tempo precisa necessariamente ser retirado de alguma outra atividade.
Menos tempo para estudar.
Menos tempo para dormir.
Menos tempo para conversar.
Menos tempo para brincar.
Menos tempo simplesmente para não fazer nada.
Mas existe outra dimensão que pode ser igualmente importante:
quando esse contato começa?
Uma criança que utiliza redes sociais durante algumas horas por dia aos 16 anos não está necessariamente vivendo a mesma experiência de uma criança que recebe um smartphone pessoal e começa a utilizar redes sociais vários anos antes.
O cérebro ainda está em desenvolvimento. Os hábitos ainda estão sendo formados. A capacidade de administrar atenção e impulsos ainda está amadurecendo.
É justamente nesse ponto que o novo estudo se torna interessante.
Um estudo acompanhou mais de 5 mil estudantes
Os pesquisadores utilizaram uma base de dados formada por 5.227 estudantes do norte da Itália, relacionando informações sobre seus hábitos digitais com resultados de avaliações padronizadas realizadas ao longo de sua trajetória escolar.
Os participantes tinham entre aproximadamente 7 e 16 anos quando considerados os diferentes momentos de sua trajetória escolar.
O estudo não olhou apenas para o desempenho em um determinado momento.
Essa é uma das características mais interessantes da pesquisa.
Os pesquisadores tinham acesso a resultados de avaliações padronizadas realizadas em diferentes etapas da escolarização e puderam relacioná-los ao momento em que os estudantes começaram a utilizar redes sociais em uma conta pessoal.
Entre as avaliações estavam conhecimentos de italiano, inglês e matemática.
Os pesquisadores então compararam estudantes que começaram a utilizar redes sociais mais cedo com aqueles que adiaram esse contato.
E utilizaram uma estratégia estatística chamada difference-in-differences, que permite comparar mudanças ao longo do tempo entre grupos expostos a uma determinada condição em momentos diferentes.
Isso é importante porque o estudo tenta ir além de simplesmente perguntar:
“Quem usa mais redes sociais tira notas piores?”
A pergunta passa a ser:
“O que acontece com o desempenho escolar quando o acesso às redes sociais começa mais cedo?”
O que os pesquisadores encontraram?
Os resultados apontaram para uma associação entre uso precoce de redes sociais e pior desempenho acadêmico ao longo da trajetória escolar.
Os efeitos foram particularmente observados em matemática e italiano.
Isso não significa que toda criança que começa a usar redes sociais cedo terá dificuldades na escola.
Também não significa que as redes sociais sejam a única causa possível de um pior desempenho.
Mas os resultados sugerem que a idade em que esse contato começa pode ser relevante.
E aqui está uma diferença importante.
Imagine que duas crianças utilizem redes sociais durante o mesmo número de horas.
Uma começa aos 11 anos.
Outra começa aos 15.
Se o momento de introdução da tecnologia realmente tiver importância, simplesmente contabilizar as horas de uso não seria suficiente para entender o problema.
É como medir apenas a quantidade de combustível consumida por um carro sem perguntar em que condições ele estava sendo utilizado.
O contexto importa.
O smartphone pode estar ocupando espaços que antes pareciam insignificantes
Uma das partes mais interessantes do estudo está relacionada ao que os pesquisadores chamaram de pervasividade do smartphone.
A ideia é simples.
O problema não é necessariamente apenas o momento em que o adolescente abre uma rede social.
É a presença constante do aparelho.
O celular está na mochila.
Na mesa.
Ao lado da cama.
Durante o almoço.
No caminho para a escola.
Durante uma pausa nos estudos.
Talvez até ao lado do caderno enquanto a pessoa tenta fazer uma tarefa.
Segundo os autores, uma parte relevante do efeito negativo observado parece estar relacionada justamente à presença do smartphone em momentos importantes do dia, incluindo períodos potencialmente relevantes para atenção e aprendizagem.
E isso muda um pouco a maneira como pensamos sobre distração.
Talvez a pergunta não deva ser apenas:
“Quanto tempo meu filho passa no TikTok ou Instagram?”
Talvez também devêssemos perguntar:
“Quantas vezes por dia ele precisa resistir à vontade de olhar para o celular?”
A distração pode começar antes mesmo de abrirmos o aplicativo
Imagine que você esteja estudando.
Seu celular está sobre a mesa.
Você não recebeu nenhuma notificação.
Não abriu nenhuma rede social.
Mesmo assim, sabe que o aparelho está ali.
Existe a possibilidade de chegar uma mensagem.
Uma curtida.
Uma nova publicação.
Um vídeo.
Uma conversa.
Talvez nada aconteça.
Mas a possibilidade está presente.
Para uma pessoa adulta, isso já pode ser suficiente para interromper a concentração.
Para alguém que ainda está desenvolvendo habilidades de autorregulação, a questão pode ser ainda mais delicada.
É importante, entretanto, não transformar essa hipótese em uma conclusão definitiva do estudo.
A pesquisa encontrou evidências compatíveis com um papel importante da presença do smartphone, mas isso não significa que todos os mecanismos envolvidos estejam completamente esclarecidos.
A ciência raramente funciona como uma história simples de causa e efeito.

Fonte: acervo pessoal
E se o problema não for a tecnologia, mas a forma como ela entra na vida?
Existe uma tendência de tratar tecnologia como algo que faz bem ou mal.
Como se precisássemos escolher entre:
“Celular é ruim.”
ou
“Celular é bom.”
Mas talvez a pergunta mais interessante seja outra:
Como, quando e para que estamos utilizando essa tecnologia?
Um computador pode ser usado para estudar.
Um smartphone pode ajudar um adolescente a conversar com familiares.
A internet pode permitir acesso a livros, aulas, cursos e informações que antes seriam difíceis de encontrar.
Até mesmo as redes sociais podem ter funções positivas em determinados contextos.
O problema começa quando uma ferramenta passa a ocupar espaços que deveriam ser destinados a outras atividades importantes.
E isso é especialmente relevante durante a infância e a adolescência.
O que acontece quando o celular chega cedo demais?
Pense na rotina de uma criança.
Ela acorda.
Vai para a escola.
Volta para casa.
Faz uma tarefa.
Janta.
Conversa com a família.
Toma banho.
Vai dormir.
Agora imagine inserir uma rede social nessa rotina.
De repente, surgem dezenas ou centenas de pequenas oportunidades de distração.
Uma notificação.
Um vídeo.
Uma mensagem.
Uma nova postagem.
Uma conversa.
Um conteúdo recomendado pelo algoritmo.
Nenhum desses eventos precisa durar muito.
O problema é a repetição.
Uma interrupção de poucos segundos parece insignificante.
Mas dezenas de pequenas interrupções ao longo do dia podem transformar completamente a experiência de concentração.
E talvez seja justamente essa fragmentação que precisamos aprender a observar.
Isso significa que devemos proibir redes sociais para crianças?
Não necessariamente.
E o próprio estudo não permite chegar a uma conclusão tão simples.
Os pesquisadores reconhecem limitações importantes. Embora a estratégia de difference-in-differences tente melhorar a capacidade de estimar efeitos associados ao momento de adoção, não é possível eliminar completamente todos os potenciais fatores de confusão.
Por exemplo, famílias que permitem que seus filhos tenham acesso mais cedo às redes sociais podem apresentar outras características que também influenciam o desempenho escolar.
Condições socioeconômicas.
Hábitos familiares.
Relação com a escola.
Supervisão dos pais.
Rotina de estudos.
Características individuais.
Tudo isso pode estar relacionado tanto ao momento de acesso à tecnologia quanto ao desempenho acadêmico.
Por isso, seria exagerado transformar o estudo em:
“Redes sociais causam fracasso escolar.”
Não é isso que a pesquisa demonstra.
O que ela oferece é uma evidência relevante de que o momento em que as redes sociais entram na vida de crianças e adolescentes merece mais atenção.
Talvez precisemos parar de perguntar apenas “quanto?”
Quando falamos sobre tecnologia, estamos acostumados a medir quantidade.
Quantas horas?
Quantos vídeos?
Quantas mensagens?
Quantos minutos?
Mas talvez existam outras perguntas tão importantes quanto:
Com que idade começou?
Onde o celular fica durante os estudos?
Ele acompanha a criança até a cama?
Existe algum momento do dia sem smartphone?
A criança consegue realizar uma atividade sem verificar o aparelho?
O celular está presente durante refeições e conversas?
Existe espaço para ficar entediado?
Essa última pergunta pode parecer estranha.
Mas o tédio também faz parte do desenvolvimento.
Quando cada pequeno intervalo de espera pode ser preenchido imediatamente por uma tela, perdemos oportunidades de simplesmente ficar parados, observar o ambiente, pensar ou conversar.
Talvez não seja necessário demonizar a tecnologia.
Talvez seja necessário devolver limites a ela.

Fonte: acervo pessoal
O que os pais podem aprender com esse estudo?
Uma das principais mensagens que podemos extrair da pesquisa é que a discussão sobre crianças e redes sociais talvez precise mudar de direção.
Em vez de perguntar somente:
“Quantas horas por dia meu filho usa o celular?”
podemos começar a perguntar:
“O que o celular está substituindo?”
Se o smartphone está substituindo horas de sono, precisamos olhar para o sono.
Se está substituindo tempo de estudo, precisamos olhar para os estudos.
Se está substituindo conversas familiares, precisamos olhar para a convivência.
Se está substituindo momentos de descanso, precisamos olhar para a capacidade de descansar sem estímulos constantes.
A tecnologia não existe isoladamente.
Ela entra em uma rotina que já possui outras necessidades.
O celular pode ser uma ferramenta. Mas não precisa estar presente o tempo inteiro.
Talvez essa seja a principal reflexão que podemos tirar desse estudo.
O problema não parece ser simplesmente a existência das redes sociais.
Também não podemos concluir que todo jovem que utiliza redes sociais cedo terá prejuízos acadêmicos.
Mas temos evidências suficientes para levar a sério a possibilidade de que o acesso precoce e a presença constante do smartphone possam interferir em aspectos importantes da experiência escolar.
E isso nos leva a uma pergunta que vale não apenas para crianças e adolescentes.
Vale para todos nós.
Quanto da nossa atenção estamos entregando ao celular sem perceber?
Talvez o primeiro passo não seja abandonar completamente as redes sociais.
Talvez seja simplesmente começar a perceber quando elas estão ocupando um espaço que deveria pertencer a outra coisa.
Uma conversa.
Um livro.
Uma aula.
Uma tarefa.
Uma noite de sono.
Um momento de tédio.
Ou simplesmente alguns minutos em que não precisamos fazer absolutamente nada.
Porque, em um mundo que disputa nossa atenção o tempo inteiro, aprender a decidir para onde ela vai pode ser uma das habilidades mais importantes que podemos ensinar — e também aprender.
Sobre o estudo
Título: Longitudinal effect of early social media use on standardized learning outcomes during school career
Autores: Chiara Respi, Marco Gui, Giovanni Abbiati, Cristiana Paladini, Sofia Ercolanoni, Francesca Milzani, Tiziana Pirola e Giovanni Vezzoli.
Amostra: 5.227 estudantes do norte da Itália.
Tema: idade de início das redes sociais, uso de smartphone e desempenho escolar.
Método: análise longitudinal utilizando modelos de difference-in-differences.
Principais resultados: associação entre uso mais precoce de redes sociais e piores resultados acadêmicos, especialmente em matemática e italiano; parte do efeito observado parece estar relacionada à presença do smartphone em momentos importantes do dia.
Referência:
Respi, C.; Gui, M.; Abbiati, G.; et al. Longitudinal effect of early social media use on standardized learning outcomes during school career. Research Square, 2025. DOI: 10.21203/rs.3.rs-6785728/v1.

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