Redes sociais fazem mal às crianças? O que a ciência sabe até agora

Redes sociais fazem mal às crianças? O que a ciência sabe até agora

É difícil imaginar a infância e a adolescência atuais sem redes sociais. Para muitas crianças e adolescentes, Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas fazem parte da maneira como conversam, encontram amigos, descobrem informações, acompanham tendências e constroem sua identidade.

Ao mesmo tempo, aumentaram as preocupações sobre o que acontece quando essas plataformas ocupam muitas horas do dia. Sono prejudicado, comparação social, exposição a conteúdos inadequados, cyberbullying e uso difícil de controlar aparecem com frequência nas discussões sobre saúde mental.

Mas existe uma pergunta anterior a todas essas preocupações: as redes sociais fazem mal às crianças por si mesmas ou o efeito depende de como, quanto e por que elas são usadas?

A ciência ainda não oferece uma resposta simples. Estudos recentes encontraram associações entre determinados padrões de uso e sintomas de depressão, ansiedade ou menor bem-estar, mas também mostram que simplesmente contar o número de horas passadas nas plataformas pode esconder diferenças importantes entre os usuários.

É justamente essa diferença que ajuda a entender o debate atual.


O problema começa quando “uso de redes sociais” vira uma coisa só

Dizer que uma criança “usa redes sociais” informa muito pouco.

Uma pessoa pode passar algum tempo conversando com amigos, outra pode assistir passivamente a vídeos durante horas, enquanto uma terceira pode apresentar um padrão de uso que interfere no sono, nos estudos ou nas relações presenciais.

Essas experiências não são equivalentes.

Uma das distinções mais importantes na pesquisa recente é entre tempo de uso e uso problemático. Tempo de uso é uma medida quantitativa: quantas horas a pessoa permanece nas plataformas. Uso problemático envolve um padrão mais complexo, no qual o uso pode se tornar difícil de controlar ou estar associado a prejuízos na vida cotidiana.

Essa diferença aparece de maneira consistente em pesquisas recentes.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu 59 estudos independentes, com 547.697 participantes entre 12 e 23,3 anos. Os autores encontraram uma associação mais forte entre uso problemático de redes sociais e sofrimento psicológico do que entre simplesmente passar mais tempo nas plataformas e apresentar sofrimento psicológico.

Isso não significa que o tempo seja irrelevante.

Significa que horas de uso, sozinhas, não explicam toda a relação entre redes sociais e saúde mental.


O problema começa quando “uso de redes sociais” vira uma coisa só

Imagem: acervo pessoal

O que a pesquisa descobriu?

Um dos estudos longitudinais mais relevantes publicados em 2026 acompanhou 2.350 adolescentes de 31 escolas de Londres como parte do projeto SCAMP.

Os pesquisadores avaliaram o uso de redes sociais aos 11–12 anos e acompanharam posteriormente sintomas de depressão e ansiedade entre os participantes. O estudo também investigou se o sono poderia ajudar a explicar parte dessa relação.

Adolescentes que relataram mais de três horas diárias de uso apresentaram, posteriormente, maior intensidade de sintomas depressivos e de ansiedade em comparação com aqueles que relataram entre zero e 30 minutos.

O sono apareceu como um possível mecanismo intermediário: parte da associação observada entre uso de redes sociais e sintomas foi explicada por alterações relacionadas ao sono.

Mas há uma limitação fundamental.

O estudo é observacional. Isso significa que os pesquisadores acompanharam o que acontecia naturalmente, sem distribuir aleatoriamente os adolescentes entre diferentes níveis de uso.

Por isso, o resultado demonstra uma associação longitudinal, mas não prova que as redes sociais tenham causado diretamente os sintomas.

Um adolescente que dorme mal, por exemplo, pode passar mais tempo no celular. Nesse caso, o problema do sono poderia estar contribuindo para o maior uso, e não apenas o contrário.


Outros estudos encontraram exatamente a mesma coisa?

Não exatamente.

Esse é um dos pontos mais importantes para interpretar corretamente a literatura científica.

Uma revisão de revisões publicada em 2026 analisou 72 revisões sobre redes sociais e saúde mental de adolescentes. A conclusão geral foi que as associações entre uso de redes sociais em geral e bem-estar ou sofrimento psicológico tendem a ser fracas ou inconsistentes.

Em contraste, o uso problemático apareceu de maneira mais consistente relacionado a resultados negativos. A revisão também destacou que muitos estudos sobre uso geral das redes sociais possuem poder estatístico limitado, o que dificulta detectar efeitos pequenos.

Outro estudo longitudinal publicado em 2026, com adolescentes australianos, encontrou uma associação entre mais de duas horas diárias de redes sociais e pequenos aumentos posteriores no risco de sintomas depressivos elevados e baixo bem-estar. Os efeitos foram maiores durante o início da adolescência.

Ainda assim, os próprios pesquisadores trataram os resultados como associações e não como demonstração definitiva de causalidade.

Essa diferença entre estudos é importante.

Quando pesquisas diferentes encontram efeitos pequenos, efeitos maiores em determinados grupos ou resultados que desaparecem depois do ajuste por outras variáveis, a conclusão mais responsável não é escolher simplesmente o estudo que confirma uma opinião prévia.

É entender por que os resultados podem variar.


O que significa dizer que uma plataforma é “projetada para prender atenção”?

A expressão aparece com frequência no debate público, mas precisa ser usada com cuidado.

Plataformas digitais utilizam diferentes recursos para organizar o conteúdo apresentado ao usuário, facilitar a interação e estimular que ele continue navegando. Entre esses recursos estão recomendações personalizadas, notificações, reprodução automática, rolagem contínua e sistemas baseados em engajamento.

Isso não significa, por si só, que cada recurso tenha sido criado com a intenção de prejudicar crianças.

A questão científica é outra: determinadas características das plataformas podem alterar a maneira como as pessoas usam esses serviços?

Essa pergunta é especialmente importante durante a infância e a adolescência porque o desenvolvimento de habilidades de autorregulação ainda está em andamento.

Mas também aqui existe uma diferença entre hipótese plausível e demonstração científica.

É possível discutir mecanismos pelos quais determinados recursos poderiam favorecer uso prolongado ou exposição repetida a conteúdos. Isso não permite concluir automaticamente que esses mecanismos sejam responsáveis pelo aumento de depressão, ansiedade ou outros problemas de saúde mental observados em alguns estudos.

A ciência precisa separar essas etapas.


A comparação social pode mudar quando a exposição nunca termina

Outro caminho possível envolve a comparação social.

Redes sociais podem colocar adolescentes em contato contínuo com imagens de aparência, popularidade, relacionamentos, viagens, desempenho escolar e estilos de vida de outras pessoas.

O problema não é simplesmente comparar-se com alguém.

A comparação social faz parte da vida humana e também pode ter funções positivas. O que muda nas redes sociais é a escala e a frequência da exposição: em vez de encontrar ocasionalmente alguém que parece estar vivendo melhor, um adolescente pode receber centenas de imagens selecionadas ao longo de um dia.

Isso pode ser especialmente relevante quando a pessoa já apresenta vulnerabilidades relacionadas à autoestima, imagem corporal ou pertencimento social.

Mas novamente existe uma diferença entre um mecanismo plausível e uma relação causal comprovada.

Pesquisas observacionais conseguem identificar padrões compatíveis com essa hipótese, mas não conseguem determinar sozinhas quanto cada mecanismo contribui para os resultados encontrados.


E as redes sociais também podem ajudar?

Uma análise científica responsável não pode tratar as redes sociais como uma experiência exclusivamente negativa.

Adolescentes também podem utilizar essas plataformas para manter amizades, encontrar pessoas com interesses semelhantes, receber apoio social, participar de comunidades, aprender, desenvolver identidade e ter acesso a informações.

Uma revisão clínica publicada em 2026 descreveu justamente essa combinação: diferentes padrões de uso podem estar associados a resultados negativos, neutros ou positivos, dependendo do contexto, do conteúdo, da vulnerabilidade individual e da maneira como a plataforma é utilizada.

Isso ajuda a explicar por que a pergunta “redes sociais fazem mal?” é cientificamente mais difícil do que parece.

Talvez a variável relevante não seja simplesmente a existência da rede social.

Pode ser o que acontece durante o uso.


Quando se trata de alteração na saúde mental e uso de redes sociais, o tempo de tela é o principal problema?

Imagem: acervo pessoal

O tempo de tela é o principal problema?

A resposta atual parece ser mais complexa.

Uma meta-análise publicada em 2026 encontrou uma associação estatisticamente significativa entre tempo de uso e sofrimento psicológico, mas essa associação foi consideravelmente menor do que aquela observada para uso problemático.

Outro estudo publicado em 2026 encontrou resultados diferentes depois do controle de fatores de confusão: associações inicialmente observadas entre tempo de redes sociais na adolescência e ansiedade ou depressão na vida adulta deixaram de ser significativas após o ajuste por outras variáveis.

Isso mostra por que simplesmente estabelecer uma quantidade de horas e tratá-la como um limite universal pode ser cientificamente mais complicado do que parece.

Duas crianças podem passar o mesmo número de horas em uma plataforma e ter experiências completamente diferentes.

Uma pode estar conversando com amigos.

Outra pode estar sofrendo cyberbullying.

Uma pode estar dormindo normalmente.

Outra pode estar acordada até de madrugada.

Uma pode conseguir interromper o uso quando quiser.

Outra pode apresentar um padrão de uso difícil de controlar.

O relógio registra o mesmo número de horas.

A experiência psicológica não é a mesma.


O que o sono tem a ver com essa discussão?

O sono é um dos mecanismos que merecem atenção porque pode conectar comportamento digital e saúde mental.

No estudo SCAMP, parte da associação observada entre uso de redes sociais e sintomas depressivos e de ansiedade foi estatisticamente explicada pelo sono.

Isso pode acontecer de diferentes maneiras.

O uso noturno pode reduzir o tempo disponível para dormir. Notificações podem interromper o descanso. A exposição a conteúdos estimulantes pode dificultar o desligamento. E adolescentes que já apresentam dificuldades de sono podem procurar mais frequentemente o celular durante a noite.

Portanto, existe a possibilidade de uma relação bidirecional.

Isso significa que redes sociais podem contribuir para determinados problemas de sono, enquanto dificuldades de sono também podem favorecer padrões de uso mais intensos.

A existência dessa possibilidade é justamente uma razão para não transformar uma associação estatística em uma explicação única.


O que os processos contra empresas de tecnologia acrescentam à discussão?

Os processos judiciais não são provas científicas de que redes sociais causam transtornos mentais.

Eles respondem a perguntas diferentes.

No campo científico, a pergunta é: qual é a relação entre determinadas formas de uso das plataformas e determinados resultados?

No campo jurídico, as perguntas podem envolver responsabilidade, deveres de proteção, desenho de produtos, práticas empresariais e cumprimento de normas.

Em agosto de 2026, uma decisão judicial no Novo México determinou que a Meta pagasse US$ 567 milhões e implementasse mudanças relacionadas à proteção de crianças e adolescentes. A decisão se somou a uma penalidade anterior de US$ 375 milhões no mesmo caso, levando o valor total a US$ 942 milhões. A Meta afirmou que recorreria.

Na Califórnia, também em agosto de 2026, foi anunciado um acordo proposto entre a Meta e uma coalizão formada pelo estado e outros estados americanos. A proposta, que ainda depende de aprovação judicial, inclui mudanças relacionadas a idade, supervisão parental, limites de uso e proteção de menores. A Meta negou as alegações de irregularidades.

Esses acontecimentos mostram que a discussão sobre segurança infantil nas plataformas ultrapassou o campo acadêmico.

Mas eles não resolvem automaticamente a questão científica.

Uma decisão judicial e um estudo epidemiológico podem tratar do mesmo fenômeno e chegar a perguntas diferentes.


Pais e responsáveis têm algum papel nessa história? Como eles devem guiar as crianças?

Imagem: acervo pessoal

Pais e responsáveis têm algum papel nessa história?

Têm, mas não controlam todas as variáveis.

Famílias podem estabelecer regras, conversar sobre conteúdos, acompanhar mudanças de comportamento e ajudar crianças e adolescentes a perceber quando o uso começa a interferir no sono, na escola, nas relações ou em outras atividades.

Ao mesmo tempo, seria simplista transformar toda a responsabilidade nos pais.

Uma criança está inserida em uma família, mas também em uma escola, em um grupo de amigos e em um ambiente digital construído por empresas.

Além disso, diferentes crianças apresentam diferentes níveis de vulnerabilidade.

Por isso, uma abordagem baseada exclusivamente em “os pais precisam controlar melhor o celular” não contempla toda a questão.

Da mesma maneira, atribuir todo problema de saúde mental às plataformas também seria uma simplificação.


O que podemos concluir?

O que já sabemos com mais segurança

Sabemos que uso de redes sociais não é uma exposição única e homogênea. Tempo de uso, uso problemático, tipo de conteúdo, forma de interação e contexto precisam ser diferenciados.

Também sabemos que estudos recentes encontram associações entre determinados padrões de uso e indicadores de sofrimento psicológico em adolescentes. O uso problemático aparece de maneira particularmente consistente nessas associações, enquanto os resultados para o simples número de horas de uso são menores e mais inconsistentes.

O que os estudos sugerem

Os resultados sugerem que algumas formas de uso podem ser mais relevantes para a saúde mental do que simplesmente estar ou não estar em uma rede social.

Os estudos também são compatíveis com a possibilidade de que sono, comparação social, experiências negativas e características individuais ajudem a explicar parte das associações observadas.

O início da adolescência pode ser um período especialmente importante para essa discussão, embora ainda seja necessário compreender melhor por que determinados grupos parecem mais vulneráveis do que outros.

O que ainda não sabemos

Ainda não podemos afirmar que redes sociais, de maneira geral, causam depressão ou ansiedade em crianças e adolescentes.

Também não podemos afirmar que existe um número universal de horas que seja seguro ou prejudicial para todas as pessoas.

E não podemos concluir que uma única característica das plataformas, como notificações, recomendações ou rolagem contínua, seja responsável pelos problemas de saúde mental observados em determinados estudos.

A evidência disponível aponta para uma relação complexa, na qual comportamento, contexto, desenvolvimento, vulnerabilidades individuais e características das plataformas podem interagir.

O que isso significa para você?

Se você é pai, mãe ou responsável, talvez a pergunta mais útil não seja apenas “quantas horas meu filho passa nas redes sociais?”, mas também “o que está acontecendo durante esse uso?”. Duas crianças podem passar o mesmo tempo em uma plataforma e ter experiências muito diferentes: uma pode estar conversando com amigos, enquanto outra pode estar enfrentando cyberbullying, deixando de dormir ou tendo dificuldade para interromper o uso.

Isso não significa que exista uma maneira única de organizar o uso de redes sociais em todas as famílias. A evidência disponível não permite estabelecer um número universal de horas que seja seguro ou prejudicial para todas as crianças e adolescentes. O que ela sugere é que vale observar o conjunto da experiência: sono, relações, escola, conteúdo consumido, capacidade de interromper o uso e mudanças no bem-estar.

Também é importante não transformar toda dificuldade em um problema causado pelas redes sociais. Uma criança pode estar passando por dificuldades emocionais e, ao mesmo tempo, usar mais o celular. Em outros casos, determinadas experiências nas plataformas podem contribuir para piorar o sono ou aumentar o sofrimento. A relação pode funcionar nos dois sentidos e envolver vários fatores ao mesmo tempo.

Por isso, mais do que procurar uma resposta simples para a pergunta “redes sociais fazem mal?”, pode ser mais útil prestar atenção em como as redes sociais estão participando da vida daquela criança. A ciência ainda não permite reduzir essa questão a uma quantidade de horas ou a uma regra que funcione igualmente para todos.


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Referências

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Nota editorial

Este artigo apresenta resultados de estudos observacionais, revisões e meta-análises sobre redes sociais e saúde mental de crianças e adolescentes. Associação estatística não significa, por si só, causalidade. Os resultados também não devem ser usados para diagnosticar uma criança ou adolescente nem para concluir que determinada experiência de uso necessariamente produzirá um problema de saúde mental.

A literatura científica ainda apresenta diferenças entre estudos quanto ao tamanho dos efeitos, às populações analisadas, às formas de medir o uso de redes sociais e aos fatores considerados nas análises. Por isso, o texto procura distinguir o que apresenta evidência mais consistente daquilo que permanece como hipótese ou questão em aberto.

Enfermeiro | Especialista em Saúde Mental (Dependência Química) e Enfermagem do Trabalho Renato Ozeki é enfermeiro formado em 2010, com especializações em Saúde Mental, com ênfase em Dependência Química, e Enfermagem do Trabalho. Atua na Universidade de São Paulo desde 2014 em atividades relacionadas à saúde mental, além de participar de atividades de formação e realizar palestras na área.

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