Redes sociais podem prejudicar o desempenho escolar?

Redes sociais podem prejudicar o desempenho escolar?

O uso de redes sociais faz parte da rotina de muitos adolescentes, mas uma pergunta continua relevante para pais, educadores e pesquisadores: começar a usar essas plataformas mais cedo pode prejudicar o desempenho escolar?

Um estudo publicado em 2026 na revista Nature Human Behaviour investigou justamente essa questão. Os pesquisadores acompanharam dados de 5.227 estudantes de 7 a 16 anos, no norte da Itália, relacionando a idade em que eles começaram a usar redes sociais com resultados obtidos em avaliações padronizadas de italiano, inglês e matemática.

Os resultados apontaram uma associação entre o início mais precoce das redes sociais e resultados acadêmicos piores ao longo da trajetória escolar. Mas interpretar esse resultado exige cuidado: o estudo não foi um experimento em que pesquisadores decidiram quem poderia ou não usar redes sociais. Além disso, os dados foram coletados em uma região específica da Itália.

A questão, portanto, não é simplesmente descobrir se “redes sociais fazem mal à escola”. É entender o que a pesquisa realmente encontrou, quanto podemos confiar nessa relação e quais mecanismos podem ajudar a explicá-la.


O que exatamente o estudo investigou?

Imagem: acervo pessoal

O que exatamente o estudo investigou?

Os pesquisadores analisaram estudantes de escolas do norte da Itália e combinaram informações sobre os hábitos digitais deles com resultados de avaliações padronizadas realizadas ao longo da vida escolar.

Um dos principais interesses foi identificar quando os estudantes começaram a ter uma conta pessoal em redes sociais.

Isso permitiu comparar estudantes que começaram a usar essas plataformas mais cedo com aqueles que só criaram uma conta pessoal mais tarde.

A pesquisa acompanhou principalmente estudantes que começaram a utilizar redes sociais na sexta, sétima ou oitava série e os comparou com estudantes que só começaram na nona série ou depois.

A vantagem dessa abordagem é que ela permite observar não apenas uma fotografia do desempenho escolar em determinado momento, mas também como os resultados acadêmicos evoluíram depois da entrada nas redes sociais.

Os pesquisadores utilizaram resultados de avaliações padronizadas de italiano, inglês e matemática e aplicaram modelos estatísticos de difference-in-differences, uma técnica que permite comparar mudanças ao longo do tempo entre grupos que passaram por uma determinada exposição em momentos diferentes.


O que significa “difference-in-differences”?

O nome pode parecer complicado, mas a ideia é relativamente simples.

Imagine dois grupos de estudantes. Um deles começa a usar redes sociais no sexto ano. O outro só começa no nono.

Em vez de simplesmente comparar as notas dos dois grupos, os pesquisadores observam como o desempenho de cada grupo muda ao longo do tempo.

Se os dois grupos apresentavam trajetórias semelhantes antes da exposição e, depois que um deles começa a usar redes sociais, as trajetórias passam a divergir, essa diferença pode fornecer uma pista sobre o possível efeito daquela exposição.

Esse tipo de análise é mais informativo do que simplesmente observar que “estudantes que usam redes sociais têm notas menores”.

Ainda assim, não transforma automaticamente um estudo observacional em um experimento. Outros fatores podem acompanhar o momento em que o adolescente começa a utilizar redes sociais e influenciar seus resultados escolares.

Por isso, a técnica fortalece a análise da relação temporal, mas não elimina todas as possibilidades de explicação alternativa.


O que os pesquisadores encontraram?

Os resultados indicaram que o início mais precoce do uso de redes sociais esteve associado a uma piora nos resultados de aprendizagem ao longo da trajetória escolar.

Entre os estudantes que começaram a usar redes sociais no sexto ano, os pesquisadores encontraram diferenças negativas em relação aos estudantes que só começaram no nono ano ou depois.

Ao final do oitavo ano, a diferença estimada era de aproximadamente 0,22 desvio-padrão em italiano e 0,18 desvio-padrão em matemática. Em avaliações realizadas até o décimo ano, as diferenças estimadas chegaram a aproximadamente 0,22 desvio-padrão em italiano e 0,27 em matemática.

Esses números não significam que todos os estudantes que começam a usar redes sociais cedo terão uma determinada queda nas notas.

Eles representam diferenças médias estimadas entre grupos dentro daquela população estudada. O efeito observado em um indivíduo pode ser diferente, e o estudo não permite prever o desempenho escolar de uma criança específica.

Também é importante observar que os resultados não indicam que todas as disciplinas sejam afetadas exatamente da mesma maneira.

A pesquisa encontrou efeitos particularmente relevantes em italiano e matemática, enquanto o conjunto dos resultados precisa ser interpretado considerando o desenho específico do estudo e as características dos estudantes analisados.


Então o problema é o tempo de tela?

Não necessariamente.

É tentador transformar o resultado em uma conclusão simples: quanto mais tempo diante da tela, pior o desempenho escolar. Mas não foi isso que o estudo demonstrou.

O foco principal da pesquisa foi o momento em que os estudantes começaram a utilizar redes sociais, e não apenas o número de minutos diários passados diante de uma tela.

Essa diferença é importante porque “tempo de tela” reúne atividades muito diferentes.

Uma hora utilizada para pesquisar um conteúdo escolar não representa necessariamente a mesma experiência que uma hora alternando entre vídeos curtos, mensagens, notificações e outras formas de conteúdo altamente estimulante.

Da mesma forma, uma criança pode utilizar um computador por várias horas para estudar e outra pode passar menos tempo conectada, mas utilizar esse período predominantemente para redes sociais.

Por isso, reduzir toda a discussão a uma contagem de horas pode esconder uma questão mais importante: o que está acontecendo durante esse tempo e o que esse uso está substituindo?


O que o smartphone pode estar substituindo?

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que parte da relação observada pode estar ligada à presença cada vez mais constante do smartphone na vida cotidiana.

Estar com o aparelho por perto não significa necessariamente estar utilizando uma rede social naquele momento.

O smartphone pode acompanhar o estudante durante as aulas, no intervalo, durante o estudo em casa e antes de dormir. Mesmo quando a tela está desligada, notificações, mensagens e a expectativa de receber alguma atualização podem fazer parte do ambiente em que o estudante realiza outras atividades.

Isso levanta uma possibilidade importante: o impacto acadêmico pode não depender apenas do tempo efetivamente gasto em uma plataforma, mas também da pervasividade do smartphone, ou seja, de quanto o dispositivo passa a ocupar diferentes momentos e espaços da rotina.

Nesse sentido, o problema pode envolver não apenas “quanto tempo foi usado”, mas também quando o aparelho está presente, o que ele interrompe e quais atividades acabam perdendo espaço.


Então o problema é o tempo de tela?

Imagem: acervo pessoal

O que significa “pervasividade do smartphone”?

Pervasividade significa, nesse contexto, que o smartphone deixa de ser utilizado apenas em momentos específicos e passa a estar presente em praticamente toda a rotina.

O aparelho pode estar na mochila durante a aula, sobre a mesa durante o estudo, ao lado da cama durante a noite e disponível durante momentos de lazer.

Essa presença constante pode facilitar interrupções frequentes.

Uma mensagem, uma notificação ou simplesmente a possibilidade de verificar uma plataforma pode competir pela atenção com uma atividade que exige concentração prolongada.

Isso não significa que toda interrupção provocada por um smartphone prejudique o aprendizado ou que o aparelho seja, por si só, responsável por problemas escolares.

É uma hipótese sobre um possível mecanismo que ajuda a explicar os resultados encontrados na pesquisa.


Por que começar mais cedo pode fazer diferença?

Uma das características mais importantes do estudo é justamente o momento em que a exposição ocorre.

A entrada nas redes sociais acontece durante uma fase da vida em que os estudantes ainda estão desenvolvendo hábitos de estudo, formas de organizar o tempo e estratégias para lidar com distrações.

Começar a utilizar determinadas plataformas mais cedo pode significar que elas passam a fazer parte dessas rotinas antes de outros hábitos estarem consolidados.

Mas isso não significa que exista uma idade universal a partir da qual o uso de redes sociais se torna prejudicial.

O estudo não estabelece uma regra como “usar antes dos X anos causa perda de aprendizagem”. Ele compara diferentes momentos de entrada nas redes sociais dentro da população pesquisada e identifica diferenças nas trajetórias acadêmicas.

Essa distinção é fundamental para não transformar um resultado estatístico em uma recomendação individual que a pesquisa não foi desenhada para fornecer.


O estudo prova que redes sociais causam pior desempenho?

O resultado é mais forte do que uma simples correlação, mas ainda exige cautela.

Uma correlação mostra que duas coisas aparecem relacionadas. Por exemplo, seria possível observar que estudantes que utilizam redes sociais mais cedo apresentam determinado desempenho escolar sem saber se uma coisa contribuiu para a outra.

O estudo foi além dessa comparação simples ao acompanhar a evolução dos resultados acadêmicos e utilizar modelos de difference-in-differences. Os autores interpretam os resultados como evidência compatível com um efeito negativo do início precoce das redes sociais sobre os resultados de aprendizagem.

Isso, porém, não significa que todas as possíveis variáveis alternativas tenham sido eliminadas.

A pesquisa não foi um experimento controlado em que estudantes foram distribuídos aleatoriamente para começar ou não a utilizar redes sociais. Além disso, parte das informações sobre os hábitos digitais foi obtida retrospectivamente, ou seja, os estudantes precisaram informar hábitos anteriores.

Também existe uma limitação importante de generalização: os participantes estudados estavam no norte da Itália, em escolas específicas. Não podemos simplesmente assumir que o tamanho do efeito encontrado seja igual entre estudantes brasileiros, porque diferenças culturais, escolares, familiares, socioeconômicas e no próprio uso das plataformas podem modificar essa relação.

Portanto, a conclusão mais responsável é que o estudo fornece evidências relevantes de uma relação potencialmente causal, mas não permite afirmar que qualquer criança ou adolescente que comece a usar redes sociais cedo terá necessariamente pior desempenho escolar.


Imagem: acervo pessoal

Isso significa que crianças não deveriam usar redes sociais?

O estudo, isoladamente, não permite chegar a uma conclusão tão ampla.

Ele não avaliou todas as formas de uso das redes sociais, nem estabeleceu que qualquer contato com essas plataformas produz prejuízo acadêmico.

Também não significa que a tecnologia tenha apenas efeitos negativos.

Redes sociais, smartphones e outras ferramentas digitais podem cumprir diferentes funções na vida de crianças e adolescentes, incluindo comunicação, entretenimento, participação social e acesso a informações.

A questão levantada pela pesquisa é mais específica: o início precoce do uso de redes sociais pode estar associado a uma trajetória acadêmica menos favorável, especialmente quando esse uso acontece em um contexto de presença cada vez maior do smartphone.

Isso é diferente de afirmar que a tecnologia deve ser eliminada da vida escolar ou familiar.

Uma interpretação mais cuidadosa é considerar idade, contexto, finalidade, frequência, momento do uso e aquilo que está sendo substituído por ele.


O que pais e educadores podem observar?

Os resultados da pesquisa não servem para diagnosticar nenhum problema em uma criança ou adolescente.

Também não é adequado olhar para uma queda isolada nas notas e atribuí-la automaticamente às redes sociais.

O que pode ser observado é a relação entre o uso da tecnologia e a rotina cotidiana.

Por exemplo, vale perceber se o smartphone interrompe frequentemente o estudo, se o estudante tem dificuldade para permanecer concentrado em uma atividade sem verificar o aparelho, se o uso noturno interfere na rotina de sono ou se as redes sociais passaram a ocupar tempo que anteriormente era destinado a leitura, tarefas escolares, atividades físicas, convivência presencial ou descanso.

Esses sinais não provam que as redes sociais sejam a causa de qualquer dificuldade escolar.

Eles ajudam, porém, a identificar como a tecnologia está inserida na rotina daquele estudante, que é uma questão diferente de simplesmente contar quantas horas ele passa diante de uma tela.

A pesquisa reforça justamente a importância de olhar para esse contexto em vez de reduzir a discussão a uma única medida.


O que podemos concluir?

O que já sabemos com mais segurança

O estudo publicado na Nature Human Behaviour encontrou uma relação consistente entre o início mais precoce do uso de redes sociais e resultados acadêmicos menos favoráveis entre os estudantes analisados. A pesquisa utilizou dados longitudinais, avaliações padronizadas e uma estratégia estatística que compara mudanças no desempenho entre estudantes que começaram a usar redes sociais em momentos diferentes. Isso torna o resultado mais informativo do que uma simples comparação entre usuários e não usuários.

O que os estudos sugerem

Os resultados sugerem que o início precoce das redes sociais pode contribuir para uma trajetória acadêmica menos favorável. Uma das possibilidades é que a presença constante do smartphone e as interrupções relacionadas ao dispositivo reduzam a disponibilidade de atenção para atividades que exigem concentração prolongada. Essa explicação, entretanto, deve ser tratada como uma hipótese sobre os mecanismos envolvidos, e não como algo definitivamente comprovado por este estudo.

O que ainda não sabemos

Ainda não sabemos se os mesmos efeitos aparecem com a mesma intensidade em outros países, incluindo o Brasil, nem se diferentes plataformas, formas de utilização ou contextos familiares produzem resultados diferentes. Também permanecem questões sobre quais características do uso digital são mais relevantes: a idade de início, a frequência, o tipo de conteúdo, as interrupções, o uso durante o estudo, o uso noturno ou a combinação desses fatores. Estudos futuros poderão ajudar a separar melhor essas possibilidades.

O que isso significa para você?

Para famílias e educadores, a principal conclusão não é que todo uso de redes sociais seja prejudicial, mas que o momento e o contexto de introdução dessas plataformas merecem atenção. Em vez de perguntar apenas “quantas horas de tela?”, pode ser mais útil observar o que o smartphone está interrompendo, quais atividades estão perdendo espaço e como o uso das redes sociais se encaixa na rotina de estudo, descanso e convivência. A pesquisa oferece um motivo para levar essas questões a sério, mas não uma fórmula única que determine o que deve acontecer com cada criança ou adolescente.

O que isso significa para você?

Se você convive com crianças ou adolescentes, o resultado deste estudo sugere que vale a pena olhar para as redes sociais não apenas pelo número de horas de uso, mas pelo espaço que elas ocupam na rotina. O que acontece com o tempo de estudo? O sono está sendo interrompido? O celular permanece por perto durante as tarefas escolares? Há momentos em que a atenção é constantemente dividida entre a atividade e as notificações?

Isso não significa que uma criança que usa redes sociais terá necessariamente pior desempenho escolar, nem que toda dificuldade na escola possa ser atribuída ao celular. O estudo não permite fazer esse tipo de conclusão individual. A questão mais útil é observar como o uso da tecnologia se encaixa na rotina de cada pessoa e o que ele pode estar substituindo ou interrompendo.

Para pais, educadores e os próprios estudantes, essa pode ser uma pergunta mais produtiva do que simplesmente contar horas de tela: o uso das redes sociais está ocupando um espaço que deveria ser dedicado ao estudo, ao sono, ao descanso ou à convivência? A pesquisa não oferece uma resposta única para cada família, mas ajuda a formular essa pergunta com mais cuidado.


Continue explorando

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Referência

Gui M, Respi C, Abbiati G, Paladini C, Ercolanoni S, Milzani F, et al. Longitudinal effect of early social media use on standardized learning outcomes during school career. Nat Hum Behav. 2026. doi:10.1038/s41562-026-02522-4. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41562-026-02522-4


Nota editorial

Este artigo foi produzido a partir da análise do estudo científico citado nas referências. As informações foram reorganizadas e contextualizadas para facilitar a compreensão do leitor, com explicação dos métodos utilizados, dos principais resultados, das limitações da pesquisa e das interpretações que podem ou não ser feitas a partir dos dados.

Os resultados apresentados não devem ser utilizados para diagnosticar problemas individuais nem para estabelecer uma relação automática de causa e efeito para qualquer criança ou adolescente.

Enfermeiro | Especialista em Saúde Mental (Dependência Química) e Enfermagem do Trabalho Renato Ozeki é enfermeiro formado em 2010, com especializações em Saúde Mental, com ênfase em Dependência Química, e Enfermagem do Trabalho. Atua na Universidade de São Paulo desde 2014 em atividades relacionadas à saúde mental, além de participar de atividades de formação e realizar palestras na área.

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