Depressão e cérebro: o que um novo estudo encontrou no hipocampo

Depressão e cérebro: o que um novo estudo encontrou no hipocampo

A depressão pode mudar a maneira como o cérebro funciona? Essa pergunta parece simples, mas a resposta está longe de ser apenas “sim” ou “não”.

O transtorno depressivo maior envolve alterações de humor, motivação, sono, atenção, memória e processamento das experiências. Pesquisas anteriores já haviam encontrado diferenças no hipocampo, uma estrutura cerebral importante para a memória e a aprendizagem, em pessoas com depressão.

Agora, um estudo publicado na revista Nature Medicine investigou essa relação em uma escala muito mais detalhada. Em vez de observar apenas imagens do cérebro, os pesquisadores analisaram centenas de milhares de núcleos celulares do hipocampo humano, além de expressão gênica, acessibilidade do DNA, localização espacial das células e proteínas.

Os resultados apontam para uma possível alteração em um processo chamado neurogênese hipocampal adulta, relacionado à formação de novos neurônios. Mas existe uma diferença importante entre dizer que o estudo encontrou uma alteração associada à depressão e afirmar que descobriu a causa da doença.

Não descobriu.

Neste artigo, vamos entender o que os pesquisadores encontraram, por que o hipocampo é importante, o que significa falar em neurogênese no cérebro adulto e, principalmente, o que esse estudo ainda não consegue responder.


Por que o hipocampo importa quando falamos de depressão?

O hipocampo é uma estrutura localizada profundamente no cérebro e envolvida em processos fundamentais de memória e aprendizagem.

Ele também participa da maneira como experiências são organizadas e relacionadas ao contexto.

Isso é relevante para a depressão porque o transtorno não afeta apenas o humor.

Algumas pessoas apresentam dificuldades de concentração, alterações na memória, lentificação do pensamento e mudanças na maneira como lembram ou interpretam determinadas experiências. A depressão também pode estar associada a uma tendência maior de recuperar lembranças negativas.

Isso não significa que todas as pessoas deprimidas tenham o mesmo padrão cognitivo.

Também não significa que o hipocampo seja “o centro da depressão”.

O cérebro funciona por meio de redes interligadas. O hipocampo é apenas uma das estruturas envolvidas.

Pesquisas anteriores já encontraram alterações de volume e conectividade do hipocampo em alguns grupos de pessoas com depressão, mas esses achados também variam conforme idade, características clínicas, duração da doença e outros fatores.

Por isso, a pergunta interessante não é simplesmente se o hipocampo “muda”.

É o que está acontecendo dentro dele.


O que o novo estudo tentou descobrir?

Imagem: acervo pessoal

O que o novo estudo tentou descobrir?

O trabalho foi conduzido por pesquisadores principalmente da Columbia University e instituições associadas e publicado em 21 de agosto de 2026 na Nature Medicine.

O objetivo foi investigar, em nível celular e molecular, como o hipocampo de pessoas com transtorno depressivo maior se diferencia do hipocampo de pessoas sem diagnóstico psiquiátrico.

O estudo incluiu 123 participantes no conjunto total, com amostras provenientes dos Estados Unidos e da Europa. Para a principal análise de sequenciamento de núcleo único, após os procedimentos de controle de qualidade, foram analisados 495.037 núcleos celulares, provenientes de 11 pessoas com transtorno depressivo maior e 19 controles.

Esse detalhe é importante.

Não foram 495 mil pessoas.

Foram aproximadamente 495 mil núcleos celulares obtidos de tecidos cerebrais de 30 doadores na principal análise.

Os pesquisadores combinaram diferentes técnicas:

  • sequenciamento de RNA de núcleo único, para observar quais genes estavam ativos em diferentes células;
  • sequenciamento de acessibilidade da cromatina, para investigar quais regiões do DNA estavam mais disponíveis para regulação;
  • transcriptômica espacial, que permite relacionar atividade genética à localização das células no tecido;
  • proteômica, para analisar proteínas presentes em diferentes regiões.

Essa combinação é chamada de abordagem multimodal: diferentes métodos são usados para observar o mesmo fenômeno por ângulos complementares.

O objetivo era reconstruir, com o máximo de detalhe possível, o que estava acontecendo no hipocampo.


O que é neurogênese?

Neurogênese é o processo de formação de novas células nervosas.

Em animais, especialmente em roedores, existe uma extensa literatura mostrando que novas células nervosas podem surgir no hipocampo adulto.

No caso dos seres humanos, porém, a questão é muito mais controversa.

Um estudo publicado na Nature em 2018, por exemplo, encontrou uma redução acentuada de células jovens no hipocampo humano ao longo do desenvolvimento e não detectou neurônios jovens em suas amostras adultas.

Outras pesquisas chegaram a conclusões diferentes, e a existência, magnitude e relevância funcional da neurogênese hipocampal adulta humana continuam sendo objeto de debate.

É justamente nesse contexto que o novo estudo se torna interessante.

Os pesquisadores não apenas procuraram uma célula específica que pudesse ser chamada de “neurônio novo”.

Eles combinaram diferentes sinais moleculares para identificar uma trajetória celular.

Em termos simples, é como observar várias etapas de um processo:

Célula-tronco neural → célula progenitora → neuroblasto → neurônio imaturo → neurônio maduro.

O estudo encontrou evidências compatíveis com essa trajetória no hipocampo humano adulto, particularmente na chamada zona subgranular do giro denteado.


O que aconteceu com essa trajetória na depressão?

Foi aqui que apareceu um dos principais resultados.

Nos tecidos associados ao transtorno depressivo maior, os pesquisadores encontraram evidências de que a trajetória neurogênica estava desregulada ou interrompida em determinados estágios.

De forma simplificada, havia mais células com características de estágios iniciais e menos evidências de progressão normal para estágios posteriores.

O NIH resumiu o achado observando que o tecido de pessoas com depressão apresentava mais células semelhantes a células-tronco neurais e menos células intermediárias do que o tecido dos controles.

Isso levou os pesquisadores a descrever o fenômeno como um processo neurogênico estagnado.

Mas existe uma diferença importante entre essa descrição e a frase:

“A depressão impede o cérebro de produzir novos neurônios.”

Essa frase é forte demais.

O estudo não demonstrou que toda pessoa com depressão deixa de produzir neurônios.

Também não demonstrou que a neurogênese seja a causa da depressão.

O que ele encontrou foi um padrão celular associado ao transtorno depressivo maior em tecido cerebral pós-morte.

Essa diferença é fundamental.


Não foi apenas uma alteração na produção de neurônios

Imagem: acervo pessoal

Não foi apenas uma alteração na produção de neurônios

Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes do trabalho.

Se o estudo tivesse encontrado apenas uma diferença na quantidade de determinadas células, a descoberta seria interessante, mas relativamente limitada.

Os pesquisadores encontraram alterações em vários sistemas ao mesmo tempo.

Entre elas aparecem:

  • regulação da expressão gênica;
  • alterações epigenéticas, que envolvem mecanismos capazes de modificar a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA;
  • sinais relacionados ao estresse celular;
  • alterações na sinalização relacionada ao interferon;
  • mudanças na comunicação entre neurônios;
  • desequilíbrio entre atividade excitatória e inibitória;
  • alterações na plasticidade sináptica;
  • redução da capacidade metabólica de determinadas células;
  • sinais relacionados à ativação imune e neuroinflamação.

Em outras palavras, o estudo não encontrou um único “defeito” no hipocampo.

Encontrou uma rede de alterações moleculares e celulares.

Esse resultado combina com uma compreensão mais atual da depressão: não existe evidência de que o transtorno possa ser reduzido a uma única substância, uma única região cerebral ou um único mecanismo biológico.


O que significa plasticidade cerebral?

Plasticidade cerebral é a capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura e seu funcionamento em resposta a experiências, aprendizagem, desenvolvimento e outros estímulos.

As conexões entre neurônios podem ser fortalecidas ou enfraquecidas.

Circuitos podem modificar sua atividade.

Células podem mudar seu estado funcional.

Essa capacidade é essencial para aprender e se adaptar.

Por isso, quando os pesquisadores encontram alterações na plasticidade do hipocampo, a descoberta chama atenção.

O resultado sugere que, na depressão, não existe apenas uma mudança relacionada ao humor.

Pode haver também alterações em mecanismos que ajudam o cérebro a adaptar-se às experiências.

Mas, novamente, isso não significa que a depressão seja simplesmente uma “falha de plasticidade”.

O cérebro está conectado ao restante do organismo e também responde ao ambiente, ao estresse, ao sono, às relações sociais, às doenças físicas e a inúmeros outros fatores.


E o que isso tem a ver com memória?

Essa pode ser uma das partes mais interessantes da descoberta.

A depressão pode estar associada a alterações cognitivas, incluindo mudanças na memória e na forma como experiências são recuperadas.

Uma pessoa pode não apenas lembrar um acontecimento negativo.

Ela pode ter maior facilidade para recuperar outras experiências negativas relacionadas a ele.

Isso pode influenciar a interpretação do presente.

Imagine, por exemplo, alguém que comete um erro no trabalho.

Uma possibilidade seria pensar:

“Eu errei nessa situação e preciso entender o que aconteceu.”

Outra possibilidade, especialmente quando a pessoa está em sofrimento depressivo, é o acontecimento se conectar rapidamente a outras lembranças negativas:

“Eu sempre faço tudo errado.”

“Nunca consigo fazer nada direito.”

“Isso prova que eu não sou capaz.”

Essas frases são apenas um exemplo hipotético. Elas não representam uma fala registrada no estudo.

A questão é que memória e emoção não funcionam como sistemas completamente separados.

O hipocampo participa da organização das memórias e do contexto em que as experiências são armazenadas e recuperadas.

Por isso, alterações na plasticidade do hipocampo podem ajudar a explicar parte dos sintomas cognitivos associados à depressão.

O novo estudo fornece uma possível ponte entre essas duas áreas: alterações celulares no hipocampo e funções cognitivas que dependem dessa estrutura.


Então o estudo descobriu a causa da depressão?

Não.

Essa talvez seja a informação mais importante de todo o artigo.

Associação não é causalidade.

Causalidade significa que uma determinada alteração contribui diretamente para produzir outra.

O estudo encontrou uma associação entre o transtorno depressivo maior e alterações na trajetória neurogênica e em outros processos celulares do hipocampo.

Mas ele não acompanhou pessoas ao longo do tempo para descobrir o que aconteceu primeiro.

Os pesquisadores analisaram tecido cerebral pós-morte.

Isso permite observar o estado final do tecido, mas não reconstruir perfeitamente a sequência de acontecimentos.

Por exemplo, ainda é possível perguntar:

A depressão provocou alterações na neurogênese?

alterações biológicas contribuíram para o desenvolvimento da depressão?

Os dois processos se influenciaram mutuamente?

Parte dessas alterações está relacionada a características específicas dos participantes estudados?

O estudo não consegue responder definitivamente a essas perguntas.


Existe outra limitação importante: quem eram os participantes?

A amostra foi cuidadosamente selecionada.

Os pesquisadores utilizaram critérios rigorosos para reduzir fatores que poderiam alterar o tecido cerebral, incluindo ausência de determinadas doenças neurológicas e condições específicas de preservação das amostras.

Também não havia uso recente de medicamentos psicotrópicos na maioria dos participantes, embora o protocolo permitisse benzodiazepínicos em determinadas circunstâncias.

Isso é relevante porque medicamentos podem modificar processos celulares.

Mas existe outro problema metodológico.

Os participantes eram doadores de tecido cerebral após a morte, e o próprio estudo reconhece limitações relacionadas às circunstâncias da morte e às características clínicas dessa população.

Isso significa que não devemos assumir que o padrão encontrado represente automaticamente todas as pessoas que vivem com depressão.

Uma pessoa em um episódio depressivo que está viva, em tratamento e acompanhada em um serviço de saúde não é necessariamente biologicamente equivalente aos participantes desse estudo.

Essa é uma limitação comum em pesquisas pós-morte.


O estudo prova que existe neurogênese no cérebro adulto humano?

Ele fornece evidências importantes a favor da existência de uma trajetória neurogênica no hipocampo humano adulto.

Mas a questão científica é mais complexa do que simplesmente responder “sim”.

A existência e a extensão da neurogênese adulta humana vêm sendo debatidas há décadas, em parte porque diferentes métodos podem produzir resultados diferentes.

O novo trabalho acrescenta evidências moleculares, espaciais e proteômicas ao debate.

Isso fortalece a hipótese de que existe uma população celular organizada em uma trajetória compatível com neurogênese.

Mas não encerra automaticamente todas as controvérsias.

Esse ponto merece destaque porque uma descoberta científica pode ser importante mesmo quando não resolve uma discussão inteira.


O que este estudo acrescenta ao que já sabíamos?

Pesquisas anteriores já haviam associado depressão a alterações no hipocampo.

Um estudo publicado em 2009, por exemplo, encontrou maior número de células progenitoras neurais no hipocampo anterior de pessoas que haviam utilizado antidepressivos, embora os próprios autores tenham destacado que ainda não estava demonstrado se esse mecanismo era necessário para o efeito terapêutico desses medicamentos.

O novo trabalho avança em outra direção.

Em vez de observar apenas a quantidade de determinadas células, ele tenta reconstruir como diferentes estados celulares se relacionam entre si e quais mecanismos moleculares estão associados a essa trajetória.

Além disso, mostra que as alterações não estão restritas à neurogênese.

Há mudanças envolvendo regulação gênica, comunicação neuronal, plasticidade, metabolismo, estresse celular e sinalização imune.

Isso ajuda a explicar por que a depressão provavelmente não pode ser compreendida por uma única explicação biológica.


Isso significa que antidepressivos deveriam “estimular a neurogênese”?

Imagem: acervo pessoal

Isso significa que antidepressivos deveriam “estimular a neurogênese”?

Ainda não.

Essa é uma possível direção para pesquisas futuras, mas não uma recomendação clínica derivada deste estudo.

O trabalho identifica potenciais alvos terapêuticos. Ele não testou um tratamento capaz de corrigir a trajetória neurogênica em pessoas vivas.

Também não mostrou que aumentar a neurogênese, isoladamente, faria alguém sair de um episódio depressivo.

Para transformar uma descoberta molecular em tratamento, seria necessário demonstrar várias etapas:

  1. que a alteração realmente participa do desenvolvimento dos sintomas;
  2. que ela pode ser modificada com segurança;
  3. que modificar essa via melhora sintomas;
  4. que o efeito é reproduzível;
  5. que o tratamento funciona em diferentes grupos de pacientes.

Ainda estamos nas etapas iniciais desse caminho.


O que a descoberta muda na maneira de entender a depressão?

Ela reforça uma ideia importante:

A depressão é um transtorno complexo, que envolve o cérebro, o corpo e a experiência da pessoa.

Isso significa abandonar duas explicações igualmente simplistas.

A primeira seria:

“Depressão é falta de força de vontade.”

A segunda seria:

“Depressão é apenas um problema em uma parte do cérebro.”

Nenhuma das duas descreve adequadamente o que as pesquisas mostram.

O cérebro participa da depressão, evidentemente.

Mas o funcionamento cerebral é influenciado por sono, estresse, experiências de vida, relações sociais, saúde física, genética, desenvolvimento e condições ambientais.

O próprio estudo encontrou múltiplos mecanismos celulares funcionando em conjunto, em vez de uma única alteração isolada.

Por isso, compreender a biologia da depressão não significa transformar sofrimento psicológico em uma simples doença “do cérebro”.

Significa reconhecer que experiências psicológicas também possuem uma dimensão biológica.


E existe alguma esperança nessa descoberta?

Existe uma possibilidade científica, mas é importante não transformá-la em promessa terapêutica.

O cérebro possui plasticidade.

Isso significa que seus circuitos podem mudar.

O novo estudo sugere que determinados mecanismos relacionados à plasticidade do hipocampo estão alterados no transtorno depressivo maior.

Se pesquisas futuras conseguirem descobrir exatamente quais alterações são relevantes e como modificá-las com segurança, isso poderá contribuir para tratamentos mais precisos.

Mas ainda não sabemos se esse caminho funcionará.

O resultado mais concreto, neste momento, é outro:

Os pesquisadores conseguiram produzir um mapa molecular muito mais detalhado do hipocampo humano na depressão.

Esse mapa pode ajudar a formular novas perguntas.

E, em ciência, novas perguntas bem formuladas podem ser tão importantes quanto uma resposta imediata.


O que podemos concluir?

O que já sabemos com mais segurança

O estudo publicado em 2026 na Nature Medicine encontrou diferenças moleculares e celulares no hipocampo de pessoas com transtorno depressivo maior, incluindo alterações associadas à trajetória de formação de novas células neurais, à regulação de genes, à resposta imune, ao estresse celular e à plasticidade das conexões entre neurônios. A análise principal reuniu 495.037 núcleos celulares, obtidos de tecido cerebral de 11 pessoas com transtorno depressivo maior e 19 controles após o controle de qualidade.

Também podemos dizer com segurança que essas alterações não apontam para um único mecanismo responsável pela depressão. Os resultados mostram um conjunto de processos biológicos que aparecem associados ao transtorno, reforçando a ideia de que a depressão envolve mudanças em diferentes níveis do funcionamento cerebral.

O que os estudos sugerem

Os resultados sugerem que alterações na neurogênese hipocampal podem fazer parte da biologia do transtorno depressivo maior. O estudo encontrou sinais compatíveis com uma interrupção ou desregulação da trajetória de desenvolvimento das células da linhagem neuronal no hipocampo, ao mesmo tempo em que identificou alterações em processos relacionados a estresse celular, sinalização imune, metabolismo e plasticidade sináptica.

Esse resultado também dialoga com pesquisas anteriores. Em 2009, um estudo encontrou maior número de células progenitoras neurais no hipocampo de pessoas com depressão tratadas com antidepressivos em comparação com pessoas não tratadas, embora os próprios autores tenham ressaltado que ainda não era possível determinar se essa alteração era necessária para o efeito terapêutico.

Por isso, uma interpretação possível é que a neurogênese não deva ser vista isoladamente, mas como parte de uma rede de processos que envolve plasticidade cerebral, regulação genética, metabolismo, estresse e sistema imune. Essa interpretação é compatível com os dados, mas ainda precisa ser testada por estudos capazes de acompanhar esses processos ao longo do tempo.

O que ainda não sabemos

O estudo não demonstra que alterações no hipocampo sejam a causa da depressão. Como o material analisado foi obtido após a morte dos participantes, a pesquisa permite comparar características biológicas associadas ao transtorno, mas não determinar se essas alterações apareceram antes da depressão, foram produzidas ou agravadas por ela ou fazem parte de uma cadeia de mecanismos que se influenciam mutuamente.

Também não podemos afirmar que a depressão simplesmente “faz o cérebro parar de produzir neurônios”. A própria existência de neurogênese no hipocampo humano adulto continua sendo uma questão científica discutida. Um estudo publicado na Nature em 2018 não detectou neurônios jovens no giro denteado de adultos e concluiu que a neurogênese nessa região não continuaria, ou seria extremamente rara, em humanos adultos.

O estudo de 2026 utiliza métodos moleculares diferentes para identificar uma trajetória neurogênica e sua desregulação, mas isso não elimina automaticamente as controvérsias metodológicas sobre como medir a neurogênese humana adulta. São necessárias novas pesquisas para determinar exatamente o que essas alterações significam e qual é seu papel na depressão.

O que isso significa para você?

Se você vive com depressão, este estudo não permite concluir que existe algo “errado” no seu hipocampo ou que seus sintomas possam ser explicados por uma única alteração no cérebro. A pesquisa foi feita com tecido cerebral de pessoas que já haviam morrido e encontrou diferenças associadas ao transtorno depressivo maior em diversos processos celulares e moleculares. Ela ajuda a compreender melhor a complexidade da depressão, mas não permite avaliar o que está acontecendo no cérebro de uma pessoa específica.

Isso também significa que uma descoberta sobre neurogênese não deve ser transformada em uma promessa de tratamento. O estudo aponta caminhos que podem ser investigados no futuro, mas ainda não demonstrou que estimular a formação de novos neurônios trataria a depressão. Para quem está em sofrimento, o resultado mais importante talvez seja entender que a depressão não pode ser reduzida a falta de força de vontade nem a um único “defeito” no cérebro. O estudo acrescenta uma peça ao quebra-cabeça, não uma explicação completa para a experiência de cada pessoa.


Continue explorando

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Referências

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Sorrells SF, Paredes MF, Cebrian-Silla A, Sandoval K, Qi D, Kelley KW, et al. Human hippocampal neurogenesis drops sharply in children to undetectable levels in adults. Nature. 2018 Mar 7;555(7696):377-381. doi:10.1038/nature25975. Disponível em: https://doi.org/10.1038/nature25975

Boldrini M, Underwood MD, Hen R, Rosoklija GB, Dwork AJ, Mann JJ, et al. Antidepressants increase neural progenitor cells in the human hippocampus. Neuropsychopharmacology. 2009;34(11):2376-2389. doi:10.1038/npp.2009.75. Disponível em: https://doi.org/10.1038/npp.2009.75

Sehgal R, Borrus D, Higgins-Chen A. Gene alteration in human brain suggests genetic and epigenetic roots of major depression. Nat Med. 2026 Set 3. doi:10.1038/s41591-026-04682-2. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41591-026-04682-2


Nota editorial

Este artigo apresenta resultados de pesquisa científica e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais de saúde. Os resultados discutidos dizem respeito principalmente ao transtorno depressivo maior estudado pelos pesquisadores e não devem ser automaticamente generalizados para todas as formas de depressão ou para todas as pessoas com sintomas depressivos.

Enfermeiro | Especialista em Saúde Mental (Dependência Química) e Enfermagem do Trabalho Renato Ozeki é enfermeiro formado em 2010, com especializações em Saúde Mental, com ênfase em Dependência Química, e Enfermagem do Trabalho. Atua na Universidade de São Paulo desde 2014 em atividades relacionadas à saúde mental, além de participar de atividades de formação e realizar palestras na área.

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