Bets e compulsão em apostas: quando o jogo vira um problema de saúde mental?
As bets entraram no cotidiano de muita gente como uma forma de entretenimento ligada ao esporte. Mas, quando apostar deixa de ser uma atividade ocasional e começa a ocupar espaço demais na rotina, surge uma questão diferente: em que momento o jogo deixa de ser apenas uma aposta e passa a fazer parte de um problema de saúde mental?
A pergunta ganhou importância no Brasil em 2026. Em julho, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas online. Em agosto, o SUS ampliou para até 100 mil teleatendimentos mensais a capacidade de atendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, incluindo familiares. O serviço funciona como uma porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Isso não significa que apostar seja, por si só, uma doença. Também não significa que toda pessoa que utiliza uma bet esteja desenvolvendo um transtorno, o ponto é outro.
O transtorno do jogo é reconhecido nas classificações diagnósticas como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos. O problema aparece quando o comportamento de apostar se torna persistente, difícil de controlar e passa a produzir sofrimento ou prejuízos relevantes na vida pessoal, familiar, social ou profissional.
Neste artigo, vamos entender por que algumas pessoas têm dificuldade para interromper as apostas, como o ambiente digital pode favorecer a repetição do comportamento, qual é a relação entre transtorno do jogo e outros problemas de saúde mental, o que já sabemos sobre tratamento e, principalmente, o que o novo atendimento do SUS realmente muda para quem precisa de ajuda.
Apostar não significa ter um transtorno
Antes de falar em compulsão em apostas, é preciso fazer uma distinção importante: nem toda pessoa que aposta tem um transtorno do jogo.
A classificação de um comportamento como transtorno depende de mais do que sua frequência. O que importa é o padrão do comportamento, a dificuldade de controle e o impacto que ele produz na vida.
Uma pessoa pode apostar ocasionalmente e não apresentar prejuízos significativos. Outra pode começar da mesma maneira, mas progressivamente passar a apostar mais vezes, gastar valores maiores, pensar frequentemente em jogos, tentar recuperar dinheiro perdido, esconder as apostas, mentir sobre quanto gastou, ficar irritada ou ansiosa quando tenta parar, comprometer o orçamento ou continuar apostando mesmo depois de perceber consequências negativas.
Esses sinais não significam automaticamente que alguém tenha um diagnóstico. Um diagnóstico exige avaliação profissional. Mas eles podem indicar que o comportamento merece atenção.
Essa diferença evita dois erros: o primeiro é dizer que todo apostador tem um problema de saúde mental; o segundo é tratar uma relação problemática com o jogo como se fosse simplesmente uma questão de falta de caráter ou de força de vontade. A evidência científica aponta para um fenômeno mais complexo.

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Por que pode ser tão difícil simplesmente parar?
Imagine uma pessoa que perde R$ 500 em uma aposta. A reação mais intuitiva seria pensar: basta parar.
Mas existe uma situação psicológica particularmente importante nesse contexto: a tentativa de recuperar as perdas. Depois de perder, a pessoa pode pensar que uma nova aposta permitirá recuperar o dinheiro. Se perde novamente, a próxima aposta passa a ter uma função ainda mais específica: recuperar não apenas os R$ 500 iniciais, mas também o novo prejuízo.
É o que a literatura sobre jogo problemático chama de chasing losses, ou perseguição das perdas.
Nesse momento, a lógica pode mudar. A pessoa já não está necessariamente apostando porque acredita que vai ganhar. Ela pode estar apostando porque quer deixar de perder.
Isso ajuda a entender por que algumas pessoas continuam apostando justamente depois de sofrer perdas importantes. A nova aposta aparece como uma tentativa de desfazer o prejuízo anterior, mas essa estratégia pode aumentar ainda mais a exposição ao risco. E é aí que uma atividade aparentemente simples pode adquirir uma dinâmica difícil de interromper.
O celular diminuiu a distância entre o impulso e a aposta
As apostas não surgiram com o celular, mas o ambiente digital mudou a facilidade de acesso. Uma aposta que antes dependia de deslocamento, horário ou circunstância específica pode agora ser realizada em poucos segundos.
As plataformas podem permanecer disponíveis durante todo o dia e utilizar recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis. O Ministério da Saúde chama atenção justamente para essas características ao discutir os riscos das apostas online.
Isso não significa que essas ferramentas causem um transtorno em todas as pessoas que as utilizam. A questão é comportamental: quanto menor a distância entre o impulso e a ação, menor também pode ser a oportunidade de interromper o comportamento antes de agir.
A pessoa pensa em apostar. O celular está na mão. A plataforma está aberta. A aposta acontece. Se perde, uma nova aposta pode ser feita imediatamente.
O ambiente digital, portanto, não explica sozinho o transtorno do jogo. Mas ele pode tornar o comportamento mais disponível, repetitivo e difícil de interromper para algumas pessoas.
Essa distinção é importante porque evita transformar uma característica da tecnologia em uma explicação única para um fenômeno que também envolve fatores psicológicos, sociais e individuais.
Quando apostar começa a funcionar como uma forma de lidar com emoções
Existe uma pergunta que pode ser mais reveladora do que simplesmente saber quanto alguém aposta:
O que essa pessoa sente antes de apostar?
Algumas pessoas podem buscar a excitação da aposta. Outras podem estar tentando escapar do tédio. Outras podem utilizar o jogo como uma maneira de lidar com estresse, ansiedade ou frustração.
O próprio Ministério da Saúde inclui entre os sinais de alerta o uso de jogos e apostas para lidar com situações de estresse, ansiedade ou frustração.
Isso cria uma possibilidade importante. A aposta pode produzir uma mudança emocional imediata, excitação, expectativa, distração ou alívio, sem necessariamente resolver o problema que estava produzindo o sofrimento.
Pode surgir, então, um ciclo:
Sofrimento → aposta → excitação ou alívio → perda, culpa ou preocupação → mais sofrimento → nova aposta.
Esse modelo não acontece necessariamente com todas as pessoas que apostam, mas ajuda a explicar por que simplesmente dizer “é só parar” pode ser insuficiente em casos de comportamento problemático.
Se a aposta está desempenhando uma função na regulação das emoções, interrompê-la pode exigir que outras formas de lidar com essas emoções sejam construídas.
Quais sinais merecem atenção?
Não existe um único sinal capaz de determinar que alguém tenha transtorno do jogo. Mas alguns padrões merecem atenção, especialmente quando aparecem juntos e começam a interferir na vida cotidiana.
Entre os sinais destacados pelo Ministério da Saúde estão:
- dificuldade para reduzir ou interromper as apostas;
- alterações no sono, na alimentação ou no humor;
- ansiedade ou irritabilidade quando a pessoa não está jogando;
- sentimentos de culpa ou vergonha;
- esconder ou mentir sobre as apostas;
- comprometimento do orçamento;
- prejuízos nas relações pessoais ou profissionais;
- utilizar o jogo para lidar com estresse, ansiedade ou frustração.
O ponto central é observar o padrão e o impacto. Uma pessoa pode apostar com frequência sem apresentar todos esses sinais. Outra pode apostar menos vezes, mas já estar enfrentando prejuízos importantes. Por isso, números isolados não contam toda a história.

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O transtorno do jogo pode aparecer junto com outros problemas de saúde mental
Esse é um dos motivos pelos quais o transtorno do jogo não deve ser tratado apenas como uma questão financeira.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em European Psychiatry em 2025 reuniu estudos populacionais sobre transtorno do jogo e outros transtornos mentais. Entre os estudos incluídos, a prevalência média ponderada de qualquer transtorno mental associado ao transtorno do jogo foi de 82,2%. Os pesquisadores encontraram também prevalências de 30,9% para transtornos do humor, 29,9% para transtornos de ansiedade e 34,2% para transtornos por uso de substâncias.
Esses números precisam ser interpretados com cuidado. Eles não significam que 82,2% de todas as pessoas que apostam terão algum transtorno mental. A análise estudou pessoas que já apresentavam transtorno do jogo, e os estudos incluídos utilizaram populações, critérios diagnósticos e métodos diferentes.
Também existe uma questão de causalidade. Uma associação entre transtorno do jogo e depressão ou ansiedade não demonstra que o jogo tenha causado esses transtornos.
Em algumas pessoas, dificuldades emocionais podem preceder o comportamento problemático. Em outras, os prejuízos provocados pelo jogo podem contribuir para o sofrimento. Em outras, os dois problemas podem influenciar-se mutuamente.
É justamente por isso que uma avaliação adequada precisa olhar para a pessoa inteira, e não apenas para o número de apostas.
E quanto ao risco de suicídio?
Essa é uma dimensão que não deve ser ignorada quando se fala de transtorno do jogo, mas também não deve ser apresentada de maneira sensacionalista.
Uma meta-análise publicada no Journal of Psychiatric Research em 2026 reuniu 14 estudos observacionais e encontrou associações entre transtorno do jogo e ideação suicida, tentativa de suicídio e mortalidade por suicídio. Os autores encontraram odds ratios agrupados de 1,58 para ideação suicida, 2,91 para tentativa de suicídio e 8,52 para mortalidade por suicídio.
Esses resultados são relevantes, mas o desenho da evidência precisa ser lembrado: trata-se de uma meta-análise de estudos observacionais. Portanto, os resultados demonstram uma associação, não que o transtorno do jogo seja, sozinho, a causa desses desfechos.
Na prática, a mensagem mais importante é outra: quando apostas estão acompanhadas de sofrimento intenso, desesperança ou pensamentos de morte, a situação precisa ser tratada como uma questão de saúde e segurança, e não apenas como um problema financeiro.
Em uma situação de risco imediato, o Ministério da Saúde orienta procurar serviços de emergência, como UPA, pronto-socorro ou hospital, e acionar o SAMU 192. O CVV, pelo telefone 188, oferece apoio emocional gratuito e sigiloso.
O que mudou no SUS em 2026?
A mudança anunciada pelo Ministério da Saúde é importante porque cria uma porta de entrada mais específica para pessoas afetadas por problemas relacionados a jogos e apostas.
Desde 4 de agosto de 2026, o Meu SUS Digital passou a oferecer capacidade de até 100 mil teleatendimentos mensais em saúde mental para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas. O serviço também contempla familiares.
A iniciativa começou em março, com capacidade inicial de 600 atendimentos mensais, e foi ampliada diante da procura. O atendimento é realizado por profissionais de saúde capacitados, incluindo psicólogos e enfermeiros.
O acesso ocorre pelo Meu SUS Digital, com conta gov.br. Na plataforma, o usuário deve acessar os Miniapps e selecionar a opção “Agora Tem Especialistas em Saúde Mental para Quem Aposta”. Depois do autoteste e do preenchimento das informações solicitadas, o usuário pode ser direcionado ao teleatendimento.
As consultas psicológicas são realizadas por videochamada e têm duração aproximada de 50 minutos. O profissional pode indicar um ciclo inicial de até dez sessões e, depois, avaliar se há necessidade de alta, novo ciclo de teleconsultas ou encaminhamento para atendimento presencial.
A atenção presencial continua fazendo parte da rede. As Unidades Básicas de Saúde (UBS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) também integram a Rede de Atenção Psicossocial e podem participar do cuidado conforme a necessidade de cada pessoa.
Portanto, a novidade não significa que o SUS tenha criado um tratamento completamente separado para apostas. Ela amplia uma porta de acesso ao cuidado.
E a família? Ela também pode procurar ajuda
Um dos aspectos relevantes da nova oferta é o atendimento aos familiares. Isso faz sentido porque os efeitos de uma relação problemática com apostas podem ultrapassar a pessoa que aposta.
Podem aparecer dívidas, conflitos, mentiras, mudanças na rotina, preocupações com o orçamento, perda de confiança. Em alguns casos, familiares passam a tentar controlar o comportamento da pessoa, esconder dinheiro ou assumir responsabilidades que antes não tinham. Isso pode aumentar ainda mais o desgaste da relação.
Por isso, cuidar da família também pode fazer parte do cuidado em saúde mental.
A pessoa que está ao redor do apostador não precisa necessariamente saber diagnosticar o problema nem encontrar sozinha uma solução. Ela pode procurar orientação profissional para compreender o que está acontecendo e saber como participar do cuidado sem assumir uma responsabilidade que não é sua.
A autoexclusão pode ajudar a criar uma barreira entre o impulso e a aposta
Além do atendimento em saúde, existe uma ferramenta de proteção financeira e comportamental: a autoexclusão centralizada.
Ela permite solicitar voluntariamente o bloqueio do CPF nas plataformas de apostas autorizadas. Segundo o Ministério da Fazenda, a ferramenta já havia registrado mais de 1,2 milhão de pedidos até agosto de 2026. A principal justificativa informada foi “perda de controle sobre o jogo – saúde mental”, responsável por 35,93% dos pedidos.
A autoexclusão não é um tratamento psicológico. Ela também não estabelece que uma pessoa tenha transtorno do jogo. É uma ferramenta de redução de danos: cria uma barreira de acesso às plataformas autorizadas e pode ser utilizada por pessoas que percebem que precisam interromper ou limitar sua relação com as apostas.
A plataforma permite escolher um período determinado ou indeterminado, conforme as regras vigentes. Isso é particularmente relevante porque, em comportamentos impulsivos, criar distância entre o impulso e a ação pode ser uma estratégia de proteção.
Mas a autoexclusão e o tratamento cumprem funções diferentes. Uma pode ajudar a reduzir o acesso. O outro pode ajudar a compreender e tratar o comportamento e os fatores associados a ele.

Imagem: acervo pessoal
Tratamento para transtorno do jogo funciona?
Existem tratamentos psicológicos com evidências de benefício.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 analisou 29 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 3.083 participantes. Os pesquisadores encontraram efeito médio das intervenções psicológicas sobre a gravidade dos sintomas e evidências especialmente favoráveis para abordagens cognitivo-comportamentais. Ao mesmo tempo, destacaram limitações importantes, incluindo risco de viés em parte dos estudos e incerteza sobre os efeitos a longo prazo.
Outra revisão, publicada em Clinical Psychology Review, reuniu meta-análises sobre tratamento cognitivo-comportamental e encontrou redução da frequência, intensidade e gravidade do comportamento de jogo no período após o tratamento.
Isso não significa que exista uma intervenção que funcione igualmente para todas as pessoas. O transtorno do jogo é heterogêneo. Uma pessoa pode precisar de psicoterapia. Outra pode precisar também de avaliação e tratamento para depressão ou ansiedade. Outra pode precisar de apoio para reorganizar sua situação financeira. Outra pode se beneficiar de estratégias para reduzir o acesso às plataformas. E algumas podem precisar de acompanhamento por períodos mais longos.
Tratamento não significa simplesmente ensinar alguém a “ter mais força de vontade”. Significa compreender o comportamento, seus gatilhos, suas consequências e as condições que podem estar mantendo o problema.
O que os estudos ainda não permitem afirmar?
É aqui que a cautela científica se torna especialmente importante.
As pesquisas mostram uma associação consistente entre transtorno do jogo e diversos problemas de saúde mental. Mas isso não significa que as apostas sejam a causa de todos esses problemas. Também não significa que toda pessoa que aposta desenvolverá transtorno do jogo. E não significa que o ambiente digital determine sozinho o comportamento.
Há ainda diferenças importantes entre os estudos quanto à população analisada, critérios diagnósticos, tipo de aposta, intensidade do comportamento e contexto social.
Outro ponto importante é que boa parte da literatura científica sobre transtorno do jogo não foi desenvolvida especificamente para explicar as bets brasileiras de quota fixa. Os mecanismos comportamentais estudados em jogos de azar são relevantes para compreender as apostas online, mas isso não autoriza simplesmente assumir que todos os resultados encontrados em outros contextos se reproduzem com a mesma magnitude no Brasil.
Essa é uma das razões pelas quais pesquisas específicas sobre apostas online continuam importantes.
Talvez a pergunta mais útil não seja “quanto você perdeu?”
Existem perguntas mais importantes:
As apostas estão interferindo no sono?
Estão comprometendo o orçamento?
A pessoa tenta parar e não consegue?
Ela esconde das pessoas próximas quanto aposta?
Está utilizando o jogo para escapar de ansiedade, tristeza, estresse ou frustração?
As relações familiares começaram a sofrer?
O trabalho ou os estudos foram prejudicados?
Existe culpa ou vergonha depois de apostar?
Nenhuma dessas perguntas, isoladamente, estabelece um diagnóstico. Mas elas podem ajudar a identificar quando uma atividade que parecia recreativa começou a ocupar um espaço desproporcional na vida.
O que podemos concluir?
O que já sabemos com mais segurança
O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos. Ele não é definido simplesmente pelo fato de uma pessoa apostar, mas por um padrão persistente associado a perda de controle, sofrimento e prejuízos significativos.
Existe uma associação importante entre transtorno do jogo e outros problemas de saúde mental. Revisões e meta-análises encontram taxas elevadas de transtornos do humor, ansiedade e uso de substâncias entre pessoas com transtorno do jogo.
Existem tratamentos psicológicos com evidências de benefício. A literatura disponível apresenta resultados especialmente favoráveis para intervenções cognitivo-comportamentais, embora ainda existam limitações e dúvidas sobre os efeitos de longo prazo.
O SUS ampliou o acesso ao cuidado. Desde agosto de 2026, o Meu SUS Digital oferece capacidade de até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares.
O que os estudos sugerem
O ambiente digital pode facilitar a repetição das apostas. A disponibilidade permanente, notificações, bônus e apostas em tempo real podem reduzir barreiras entre o impulso e o comportamento, embora isso não explique sozinho por que algumas pessoas desenvolvem problemas e outras não.
O problema pode envolver mais do que dinheiro. Sono, humor, relações, trabalho, ansiedade, vergonha e estratégias de enfrentamento emocional também podem fazer parte da história.
A autoexclusão pode funcionar como uma ferramenta de redução de danos. Ela não substitui tratamento, mas cria uma barreira de acesso às plataformas autorizadas para quem decide interromper as apostas.
O que ainda não sabemos
Ainda não é possível dizer que as bets causam diretamente depressão, ansiedade ou outros transtornos em todas as pessoas que apostam.
Também não sabemos se os efeitos observados em estudos internacionais sobre jogo se reproduzem exatamente da mesma maneira no contexto brasileiro das apostas online.
E ainda precisamos de mais pesquisas para compreender quais estratégias de prevenção e tratamento funcionam melhor para diferentes perfis de apostadores e quais resultados permanecem depois do fim do tratamento.
O que isso significa para você?
Se você aposta, o ponto mais importante não é simplesmente perguntar quanto aposta ou com que frequência. Vale observar o espaço que as apostas estão ocupando na sua vida e o quanto você consegue escolher quando parar.
Talvez seja útil prestar atenção ao que acontece antes, durante e depois de apostar. Você sente que precisa apostar para aliviar ansiedade, estresse ou frustração? Tenta recuperar dinheiro depois de uma perda? Esconde quanto apostou? As apostas começaram a comprometer seu orçamento, seu sono, seus relacionamentos, seu trabalho ou seus estudos? Você já tentou reduzir e percebeu que não estava conseguindo?
Nenhuma dessas situações, isoladamente, significa que você tenha um transtorno do jogo. Mas, quando existe perda de controle, sofrimento persistente ou prejuízos importantes, o comportamento merece ser levado a sério.
Também é importante não transformar o problema em uma questão de caráter ou força de vontade. Quando apostar passou a funcionar como uma forma de lidar com emoções, perdas ou outros problemas, simplesmente dizer “é só parar” pode não ser suficiente. Procurar ajuda profissional pode ser um passo para entender o que está acontecendo e encontrar outras formas de lidar com a situação.
No Brasil, pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas e seus familiares também podem buscar atendimento pelo SUS. O mais importante é não esperar que os prejuízos se tornem maiores para considerar que o problema merece atenção.
Continue explorando
A relação entre apostas, comportamento e saúde mental não acontece de forma isolada. Sono, relações próximas, uso da tecnologia e formas de lidar com situações difíceis também podem fazer parte dessa discussão. Os conteúdos abaixo ajudam a ampliar alguns desses temas.
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Referências
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Nota editorial
Este artigo tem caráter informativo e educacional. Os estudos apresentados mostram associações e padrões observados em determinadas populações e não permitem concluir que apostar cause diretamente depressão, ansiedade, transtornos por uso de substâncias ou outros problemas de saúde mental em todas as pessoas. A presença de um ou mais sinais descritos no texto não estabelece, por si só, um diagnóstico de transtorno do jogo. Quando as apostas estiverem causando sofrimento persistente, perda de controle ou prejuízos na vida cotidiana, é recomendável procurar avaliação e acompanhamento de profissionais de saúde.



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