Como encontrar propósito e significado na vida cotidiana? – Ikigai

Ikigai - Um propósito que se descobre.

Fonte: acervo pessoal

Cansaço, esgotamento, falta de motivação. Quantas vezes você já ouviu essas queixas em uma conversa com amigos ou familiares? E quantas vezes elas aparecem também em contextos relacionados à saúde mental?

Não é raro que, junto dessas queixas, surjam sentimentos de falta de motivação, dificuldade para encontrar sentido na rotina ou até mesmo uma perspectiva pouco positiva em relação ao futuro.

Mas por que isso acontece?

O que faz você sair da cama todos os dias?

Se perguntássemos para grande parte dos brasileiros por que eles se levantaram da cama hoje, o que você acha que responderiam?

Provavelmente ouviríamos respostas como:

“Preciso pagar as contas.”

“Não posso perder o emprego.”

“Alguém precisa trabalhar.”

“Tenho muitas responsabilidades.”

É uma lista enorme de obrigações que, muitas vezes, não parecem ter um significado pessoal. Simplesmente são coisas que precisamos fazer.

E talvez seja justamente aí que esteja uma parte do problema.

Vivemos em uma sociedade que exige cada vez mais desempenho, produtividade e disponibilidade. Ao mesmo tempo, somos constantemente estimulados a acreditar que precisamos fazer mais, conquistar mais e aproveitar melhor cada minuto.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve essa transformação como a passagem para uma sociedade do desempenho, na qual a cobrança não vem apenas de fora: o próprio indivíduo passa a cobrar de si mesmo cada vez mais.

Em uma das formulações mais conhecidas de sua obra, Han afirma que “o explorador é ao mesmo tempo o explorado”.

A ideia ajuda a compreender uma característica curiosa da vida moderna: muitas vezes, não precisamos de alguém nos obrigando a trabalhar mais. Nós mesmos fazemos isso.

O resultado pode ser uma sensação de estar constantemente ocupado, mas sem necessariamente sentir que estamos construindo uma vida que tenha significado para nós.

Ikigai - Seu propósito não precisa ser grandioso

Fonte: acervo pessoal

Quando a vida entra no piloto automático

Um dos problemas da vida moderna talvez não seja apenas estarmos ocupados demais.

Pode ser também estarmos ocupados demais fazendo coisas que não percebemos como significativas.

Passamos boa parte da vida trocando tempo e energia por segurança financeira, estabilidade e responsabilidades. Essas coisas são importantes — e não há nada de errado em trabalhar, pagar contas ou buscar estabilidade.

O problema aparece quando essas atividades passam a ocupar quase todo o espaço disponível e deixam pouco lugar para aquilo que também consideramos importante: relacionamentos, interesses, criatividade, descanso, aprendizado, cuidado, contribuição e prazer.

A rotina começa então a parecer um ciclo:

acordar → trabalhar → cumprir obrigações → descansar → dormir → repetir.

E, quando percebemos, meses ou até anos podem ter passado.

Talvez seja daí que venha aquela sensação de estar vivendo no “piloto automático”.

Mas será que existe outra maneira de olhar para a própria vida?

Uma possibilidade interessante pode ser encontrada em um conceito japonês conhecido como ikigai.

O que é ikigai?

Ikigai é uma palavra japonesa frequentemente associada à ideia de razão para viver, aquilo que dá valor ou significado à vida.

O conceito ganhou grande popularidade no Ocidente, especialmente por meio de livros, palestras e conteúdos de desenvolvimento pessoal.

O tema também aparece no documentário da Netflix Como Viver até os 100: Os Segredos das Zonas Azuis, que apresenta Okinawa, no Japão, como uma das comunidades estudadas por sua longevidade. No episódio dedicado à região, o documentário relaciona a vida dos moradores mais velhos a um senso de propósito, ou ikigai.

Mas existe uma distinção importante.

O famoso diagrama dos quatro círculos não é o ikigai tradicional

É comum encontrar na internet um diagrama formado por quatro círculos:

  • O que você ama;
  • O que você faz bem;
  • O que o mundo precisa;
  • Pelo que você pode ser pago.

A imagem é frequentemente apresentada como “o diagrama do ikigai”.

Entretanto, essa representação é uma interpretação moderna e popularizada do conceito, e não uma estrutura tradicional japonesa. A origem do diagrama de quatro círculos está ligada a modelos modernos de propósito e sua associação com a palavra ikigai ocorreu posteriormente.

Ainda assim, o modelo pode ser utilizado como uma ferramenta interessante de reflexão — desde que entendamos que ele é uma adaptação contemporânea, e não uma definição completa do conceito japonês.

E é justamente essa ferramenta que podemos utilizar para fazer uma pergunta importante:

O que está dando significado à sua vida neste momento?

Os quatro círculos do modelo moderno de ikigai

1. O que você ama

São atividades que despertam seu interesse, curiosidade ou satisfação.

Pode ser algo que faz você perder a noção do tempo. Pode ser um hobby, uma atividade criativa, cuidar de plantas, cozinhar, estudar determinado assunto, praticar um esporte ou passar tempo com pessoas importantes para você.

Não precisa ser algo grandioso.

2. O que você faz bem

Aqui entram suas habilidades, conhecimentos e competências.

São coisas que você aprendeu ao longo da vida e que outras pessoas reconhecem como pontos fortes.

Talvez você seja bom em explicar ideias, resolver problemas, ouvir pessoas, organizar tarefas, criar coisas, ensinar, cuidar ou trabalhar com números.

3. O que o mundo precisa

Esse ponto está relacionado à contribuição.

Quais problemas ao seu redor despertam sua atenção?

Existe algo que você gostaria de melhorar na sua comunidade, no seu trabalho ou na vida de outras pessoas?

Nem sempre precisamos “mudar o mundo”.

Às vezes, ajudar uma pessoa já representa uma contribuição significativa.

4. Pelo que você pode ser pago

Esse é o aspecto relacionado à sustentabilidade.

Quais conhecimentos e habilidades podem gerar renda?

Pode ser seu trabalho atual, uma profissão, um serviço, um negócio ou uma habilidade que você ainda está desenvolvendo.

A ideia aqui não é transformar tudo em dinheiro. É reconhecer que a sustentabilidade financeira também faz parte da vida real.

Quando esses elementos não estão equilibrados

O modelo dos quatro círculos sugere que podemos refletir sobre diferentes combinações entre aquilo que gostamos, nossas habilidades, nossa contribuição e nossa sustentabilidade financeira.

Por exemplo:

O que você ama + o que faz bem = paixão

Você pode encontrar muita satisfação nessa atividade, mas isso não significa necessariamente que ela seja financeiramente sustentável.

O que faz bem + pelo que pode ser pago = profissão

Você pode ser competente e ter uma boa fonte de renda, mas ainda assim sentir que falta significado pessoal.

O que o mundo precisa + pelo que pode ser pago = vocação

Existe uma contribuição e existe sustentabilidade financeira, mas isso não garante que a atividade desperte interesse ou utilize aquilo em que você se sente mais competente.

O que você ama + o que o mundo precisa = missão

Existe significado e contribuição, mas pode haver dificuldades para transformar isso em uma atividade financeiramente sustentável.

O objetivo, portanto, não precisa ser encontrar uma combinação perfeita.

Pode ser simplesmente perceber onde estão os desequilíbrios da sua vida e identificar pequenos espaços que podem ser transformados.

Ikigai - Seu ikigai não precisa ser encontrado de uma vez

Fonte: acervo pessoal

Seu propósito não precisa ser grandioso

Aqui existe uma armadilha importante.

É fácil transformar a ideia de propósito em mais uma cobrança.

Somos constantemente expostos a histórias de pessoas que largaram tudo, abriram uma empresa, descobriram sua “verdadeira paixão” e transformaram completamente suas vidas.

Isso pode criar uma expectativa perigosa:

“Se eu ainda não descobri meu grande propósito, estou vivendo errado.”

Mas talvez o propósito não precise ser grandioso.

Você não precisa abandonar seu emprego, vender seus bens ou criar uma empresa revolucionária para encontrar significado na vida.

Seu sentido pode estar em coisas muito menores.

Pode estar no café que você prepara tranquilamente pela manhã.

No orgulho de resolver um problema complexo no trabalho.

No momento em que você cuida das suas plantas no fim de semana.

Em aprender algo novo.

Em ensinar alguma coisa para seu filho.

Em conversar com um amigo.

Em ajudar alguém.

Em dedicar vinte minutos a um hobby que você abandonou há anos.

Esses pequenos elementos de significado podem ser entendidos como pequenos propósitos ou fontes de sentido presentes no cotidiano.

Não precisamos necessariamente chamar todos eles de “micro-ikigais” como se esse fosse um conceito tradicional japonês. O importante é perceber que uma vida com significado pode ser construída também por pequenas experiências significativas.

Como trazer mais significado para sua rotina

Talvez o objetivo não seja transformar completamente sua vida.

Talvez seja aprender a olhar para a rotina de uma maneira diferente.

Em vez de enxergar cada dia apenas como uma sequência de obrigações, podemos começar a perguntar:

O que, dentro dessa rotina, realmente importa para mim?

Existe alguma atividade que você gostaria de recuperar?

Alguma habilidade que gostaria de desenvolver?

Alguma pessoa com quem gostaria de passar mais tempo?

Algum problema que gostaria de ajudar a resolver?

Alguma coisa que você faz bem, mas que atualmente não encontra espaço na sua vida?

É nessas perguntas que o modelo do ikigai pode se tornar uma ferramenta de reflexão.

Um exercício para descobrir o que dá significado à sua vida

Pegue uma folha de papel e divida-a em quatro partes.

Em cada quadrante, responda com honestidade:

1. O que eu amo?

Quais são três coisas que eu gosto de fazer, mesmo que ninguém me pagasse por elas?

2. O que eu faço bem?

Quais são três habilidades que outras pessoas costumam reconhecer em mim?

3. O que o mundo precisa?

Quais são três problemas ao meu redor que me incomodam e que eu gostaria de ajudar a resolver?

4. Pelo que posso ser pago?

Quais são três formas viáveis de gerar renda utilizando meus conhecimentos e habilidades?

Agora olhe para suas respostas.

Não procure uma grande revelação.

Procure pequenas conexões.

Talvez você perceba que existe um hobby que poderia voltar a fazer.

Talvez descubra que uma habilidade esquecida poderia ser utilizada em um novo projeto no trabalho.

Talvez perceba que uma atividade que você considera simples pode trazer mais significado para sua rotina.

Não é necessário revolucionar sua vida de uma hora para outra.

Comece pequeno.

Pode ser apenas recuperar um antigo hobby por vinte minutos à noite. Pode ser propor um novo projeto no trabalho. Pode ser reservar um tempo para alguém importante. Pode ser aprender algo que sempre despertou sua curiosidade.

O seu ikigai não precisa ser encontrado de uma vez

Talvez a maior contribuição dessa reflexão seja justamente abandonar a ideia de que existe uma única resposta escondida em algum lugar esperando para ser descoberta.

A vida muda.

Nossas prioridades mudam.

Nossas habilidades mudam.

As pessoas ao nosso redor mudam.

O que dá significado à nossa vida aos 20 anos pode ser completamente diferente aos 40 ou aos 60.

Por isso, talvez seja mais útil pensar no propósito como algo que construímos e cultivamos ao longo do tempo, e não como um destino que encontramos pronto.

Você não precisa descobrir hoje qual é o grande propósito da sua vida.

Talvez seja suficiente começar fazendo uma pergunta:

O que, na minha vida de hoje, faz com que valha a pena estar aqui?

E, depois de encontrar uma resposta, por menor que ela pareça, dar a ela um pouco mais de espaço.

Porque uma vida com significado não precisa necessariamente ser extraordinária.

Ela precisa ser significativa para quem a vive.

Enfermeiro | Especialista em Saúde Mental (Dependência Química) e Enfermagem do Trabalho Renato Ozeki é enfermeiro formado em 2010, com especializações em Saúde Mental, com ênfase em Dependência Química, e Enfermagem do Trabalho. Atua na Universidade de São Paulo desde 2014 em atividades relacionadas à saúde mental, além de participar de atividades de formação e realizar palestras na área.

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